Achei este artigo muito interessante e de um assunto muito pertinente. Compartilho com vocês leitores.
Referência no estudo da hegemonia em Gramsci, Luciano Gruppi defende que o marxista italiano apresenta este conceito em toda a sua amplitude, ou seja, "como algo que opera não apenas sobre a estrutura econômica e sobre a organização política da sociedade, mas também sobre o modo de pensar, sobre as orientações ideológicas e inclusive sobre o modo de conhecer." (Gruppi, 1978, p. 3)
Gramsci e histórias em quadrinhos: Mafalda e a construção de sentidos contra-hegemônicos
Referência no estudo da hegemonia em Gramsci, Luciano Gruppi defende que o marxista italiano apresenta este conceito em toda a sua amplitude, ou seja, "como algo que opera não apenas sobre a estrutura econômica e sobre a organização política da sociedade, mas também sobre o modo de pensar, sobre as orientações ideológicas e inclusive sobre o modo de conhecer." (Gruppi, 1978, p. 3)
Em outras palavras, Gruppi
destaca que a hegemonia só é possível se a liderança de uma classe se dá também
no plano da superestrutura (num viés marxista mais ortodoxo), se ela é uma
liderança cultural e ideológica que produz consenso e adesão à sua agenda. Não
basta a ação coercitiva se o objetivo é um domínio por completo, um domínio
hegemônico.
Finalizando, é
imprescindível pontuar que as formas da hegemonia nem sempre são as mesmas,
variando de acordo com a natureza das forças que a exercem. (Moraes,
op. cit., p. 36), e que a hegemonia nunca é "completa", o poder de
uma classe nunca está garantido completamente. E reafirmando o que dissemos
anteriormente: é impossível desvincular a questão da luta de classes da
discussão de hegemonia, algo bastante comum hoje em dia, nos diversos processos
de "domesticação" de Gramsci.
Mafalda e sua turma
Criada em 1964
(inicialmente para uma propaganda de uma marca de eletrodomésticos), Mafalda é
a personagem de hq’s mais popular da Argentina e uma das mais conhecidas do
mundo. Sua curta trajetória vai de 1964 a 1973, através de três
publicações: Siete Días Ilustrados, Primera Plana e El Mundo.
Os interlocutores de Mafalda também
representam personagens extremamente ricas, como por exemplo, Susanita,
a "burguesinha" fofoqueira, egoísta e briguenta cujo principal
projeto de vida é casar e ter filhos; Felipe, o sonhador de
imaginação fértil, vidrado em hq’s de aventuras, preguiçoso, tímido e que não
gosta de ir à escola; Manolito, o empresário-mirim da turma,
ambicioso, bruto, materialista, e que sonha ser dono de uma rede de
supermercados! Completam a turma o simpático Miguelito, um
filósofo vaidoso ao extremo que deseja o estrelato mais do que tudo; a
pequena Libertad, uma miniatura de Mafalda, filha
de hippies e entusiasta das revoluções; Guile, o
irmão caçula de Mafalda, que freqüentemente a surpreende com suas
"transgressões"; e os pais de Mafalda, típico casal de
classe média latino-americana, passivos, limitados intelectualmente e
endividados.
A filósofa de seis anos,
invocada, utópica e questionadora das injustiças do mundo, libertária,
politizada, fã de Beatles e avessa a qualquer tipo de sopa, dialoga com
diversas faixas etárias e classes sociais, sendo bastante utilizada em livros
didáticos, sejam eles de Gramática, História, Geografia ou Filosofia.
A personagem de Quino constrói
sua fala, em grande parte das tiras, de duas formas: ou a partir do
questionamento dos adultos (geralmente seus pais), no intuito de dirimir as
dúvidas que tiram seu sono, ou na interação com as outras personagens, de mesma
idade, buscando entender o mundo que os cerca (por que existem guerras? por que
a mãe trabalha em casa e o pai não?) a partir dos referenciais de que dispõem.
ObviamenteMafalda não é um quadrinho infantil, dialogando
diretamente com um público majoritariamente de adolescentes e adultos. Desta
forma, a personagem de Quino oscila muitas vezes entre a
caracterização de uma criança típica, com tudo que lhe possa ser atribuído
(medo, ingenuidade, dependência dos pais), e uma criança excepcionalmente
lúcida, crítica e profunda conhecedora da realidade na qual está inserida, que
discute de igual pra igual com as pessoas mais velhas, na maioria das vezes
colocando-as em posição de "xeque-mate".
Após ser perguntado se é
possível modificar algo através do humor, Quino afirmou certa
vez: "Não. Acho que não. Mas ajuda. É aquele pequeno grão de areia
com o qual contribuímos para que as coisas mudem".Apesar da resposta
categórica, é fato que a obra de Quino contribuiu (e
contribui) bastante para a crítica do senso comum, para a politização através
da arte e, sobretudo, para uma leitura das décadas de 1960 e 1970 que, longe de
ser neutra ou contemplativa, se posiciona e questiona a todo o momento os
fatos, os costumes, a partir da visão que Quino tem do mundo,
visão que, apesar de não romper com a sociedade de classes, tampouco defender a
superação do capital, em muitas circunstâncias possibilita leituras
contra-hegemônicas da realidade. Mais à frente retornaremos a este ponto.
A crítica "Mafaldiana" aos
elementos característicos da sociedade burguesa.
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Tira 1 (A "Democracia")
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Tira 2 (O Individualismo)
A Tira 1 tem como tema
central a democracia e seu sentido denotativo. Mafalda, ainda
de dia, procura no dicionário o significado da palavra "democracia".
Ao ler que significa "governo em que o povo exerce a
soberania", Mafalda reage gargalhando profundamente,
uma vez que tem a clareza, a partir da concretude de seu mundo de criança, que
a democracia, em sua acepção original (grega) não existe. Anoitece, Mafalda vai
dormir, mas o sorriso não sai de seu rosto, fato que deixa sua
família sem entender absolutamente nada.
Esta tira permite ao
professor de História estimular a discussão sobre o que caracteriza a
democracia burguesa (sufrágio universal, liberdades políticas, império da lei,
competição política), problematizando com os alunos (i) se realmente vivemos
uma democracia (nos termos em que foi pensada pelos gregos); (ii) para quais
grupos sociais a democracia de hoje serve; (iii) se direitos políticos são a
mesma coisa que direitos sociais, civis; (iv) como é possível que um povo seja
soberano, dentre outros questionamentos.
A Tira 2 trata do
individualismo, outro elemento imprescindível do modelo burguês de sociedade.
Brincando com a idéia do self-made man, os milionários que
prosperaram "sozinhos", e com a idéia do "vencer na vida",Quino critica,
com seu humor refinado, o individualismo, extremamente valorizado e
insistentemente estimulado nas sociedades capitalistas.
Mafalda (encarnando a
"criança típica"), diz para Miguelito que estava
lendo numa revista uma matéria sobre self-made man. Seu amigo
diz não saber o que é isso, e Mafalda, que também não entendeu
direito do que se trata, sem muita certeza afirma que quando a pessoa nasce
pobre e morre rica ela venceu na vida. Trata-se de uma tira riquíssima, que o
professor pode utilizar para explorar contradições da sociedade burguesa, como
por exemplo, a veracidade da idéia do self-made man, pois é
impossível obter lucro, enriquecer, sem a "ajuda" da exploração
econômica dos trabalhadores, sem a mais-valia, sem a transformação do
trabalhador em mercadoria. Os diversos "Jobs", "Gates", "Rockfellers", "Rothschilds", "Eikes", "Justus",
idolatrados pela mídia, pelas editoras de livros sobre "Como ser um
vencedor?", pelo senso comum, não construíram impérios sozinhos,
tampouco com o esforço de seu próprio trabalho.
A expressão "vencer na vida" também pode ser
explorada, uma vez que a existência de vencedores pressupõe a existência de
"perdedores", denotando que na sociedade burguesa, a competição não
apenas é estimulada como "premiada". É devastador o efeito da idéia
de competição na sala de aula, como mostram as reações diante das notas, o
esforço para ser o número um da classe, a decepção com o "fracasso".
A frase "se você não estudar não será ninguém na
vida" é, infelizmente, ainda bastante comum no ambiente escolar,
por parte dos alunos, orientadores educacionais, professores. Provocar tais
reflexões é muito importante para revelar as contradições da sociedade do
"você vale o quanto ganha", onde os atalhos são mais estimulados que
as travessias, o "empreendedorismo" mais evidenciado que o trabalho,
o singular mais valorizado que o plural.
Fonte:Carlos Eduardo Rebuá Oliveira
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ (Proped)
Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
Tema do artigo:
Gramsci e histórias em quadrinhos-
Mafalda e a construção de sentidos contra-hegemônicos



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