POSTADO NO BLOG MATERIALISMO .NET por: (Erick Fishuk) Materialismo – Filosofia: Vladímir Ilitch Lênin - Socialismo e religião: Breve introdução Eu gosto de estudar o comunismo internacional, principalmente o regime soviético e os regimes europeus do...
Vladímir Ilitch Lênin - Socialismo e religião

Breve introdução (Erick Fishuk) Eu gosto de estudar o comunismo internacional, principalmente o
regime soviético e os regimes europeus do “socialismo real” erigidos em
1945. Sempre me interessei pelo pensamento de Vladímir Ilitch Uliánov,
ou Lênin, porque sendo o fundador da União Soviética, certamente me
forneceria alguma pista sobre a inspiração desses Estados. Também gosto,
no líder bolchevique, de sua enorme capacidade mental, de sua relativa
teimosia, de sua firmeza em meio às adversidades e, acima de tudo, de
sua aspiração sincera por um mundo melhor e mais justo, ainda que
tivesse cometido excessos em sua política, alguns, confessemos,
inevitáveis, outros nem tanto. Mas poucos condutores de massas
conseguirão superar a quantidade e a qualidade de seus escritos, por
constituírem autêntico conhecimento fresco extraído da prática imediata.
A visão comum é a de um Lênin perseguidor de religiosos, como o
seria Stálin em determinado período de seu governo e como o seriam
igualmente os outros chefes soviéticos do início dos anos 1960 até
Gorbatchov. De fato, a Revolução de Outubro de 1917 suprimiu a liberdade
de vários clérigos ortodoxos, mas deve-se lembrar que o momento era de
reação a um regime opressor e ineficiente, e a Igreja russa constituía
praticamente uma peça do aparelho de Estado tsarista. Mas “Socialismo e
religião”, embora repita o velho chavão “A religião é o ópio do povo”,
mostra alguém atento realisticamente à impregnação da fé em sua
sociedade, especialmente no proletariado, e ao quanto setores clericais
supostamente insatisfeitos com o controle estatal de seus assuntos
poderiam acatar a separação entre Igreja e Estado e a declaração da
religião como assunto privado. Em suma, mesmo sendo um ateu militante,
Lênin, teoricamente e a princípio, opta pela liberdade de expressão e de
consciência de todos aqueles que decidissem apoiar os socialistas em
sua luta contra a tirania, mesmo se sustentassem visões de mundo
distintas das da pretensa vanguarda revolucionária.
O artigo “Socialismo e religião” (título original: “Sotsializm i relíguia”) foi publicado primeiramente no número 28 da revista Nóvaia Jizn (Nova Vida), e a primeira versão em português (que eu conheço, claro), sem qualquer referência ao tradutor, saiu no site Marxists.org, extraída do site
do PCO. Notando que a tradução tinha algumas inadequações,
especialmente falta de fluidez, e percebendo a importância do artigo,
decidi começar a corrigi-la por conta própria, trabalho iniciado por
volta de março de 2011, mas, constantemente interrompido e por muito
tempo paralisado, concluído somente por volta de outubro. Neste link pode-se ter acesso a uma das inúmeras versões online do texto original em russo.
massas operárias por uma minoria insignificante da população,
pertencente às classes dos proprietários de terras e dos capitalistas.
Essa sociedade é escravista, pois os operários “livres”, que trabalham a
vida toda para o capital, “têm direito” apenas aos meios de
subsistência indispensáveis para sustentá-los como escravos produtores
do lucro e para assegurar e perpetuar a escravidão capitalista.
A opressão econômica dos operários gera inevitavelmente todas as
formas de opressão política, de humilhação social, de embrutecimento e
obscurecimento da vida espiritual e moral das massas. Os operários podem
alcançar uma liberdade política maior ou menor para lutar por sua
libertação econômica, mas nenhuma liberdade os livrará da miséria, do
desemprego e da opressão enquanto não for derrubado o poder do capital. A
religião é uma das formas de opressão espiritual que pesa em toda parte
sobre as massas esmagadas por seu perpétuo trabalho para outros, pelas
privações e pelo isolamento. A impotência das classes exploradas na luta
contra os exploradores gera tão inevitavelmente a fé numa vida melhor
após a morte como a impotência dos selvagens na luta contra a natureza
gera a fé em deuses, diabos, milagres etc. Àquele que toda a vida
trabalha e passa necessidades, a religião ensina a resignação e a
paciência na vida terrena, consolando-o com a esperança da recompensa
celeste. E àqueles que vivem do trabalho alheio, a religião ensina a
filantropia na vida terrena, propondo-lhes uma justificação muito barata
para sua existência de exploradores e vendendo-lhes a preço módico
bilhetes para a felicidade celestial. A religião é o ópio do povo. A
religião é uma espécie de aguardente espiritual ruim na qual os escravos
do capital afogam sua imagem humana e suas reivindicações de uma vida
minimamente digna.
Mas o escravo que se deu conta de sua escravidão e se ergueu para
a luta por sua libertação já deixou pela metade de ser escravo. O
operário consciente moderno, formado pela grande indústria fabril e
esclarecido pela vida urbana, repele com desprezo os preconceitos
religiosos e deixa o céu à disposição dos popes (1)
e dos carolas burgueses, conquistando uma vida melhor aqui na terra. O
proletariado moderno põe-se ao lado do socialismo, que se vale da
ciência na luta contra o nevoeiro religioso e liberta os operários da fé
na vida após a morte por meio de sua arregimentação para uma verdadeira
luta por uma vida terrena melhor.
A religião deve ser declarada um assunto privado — com essas
palavras se exprime habitualmente a atitude dos socialistas perante a
religião. Mas é preciso definir com exatidão o significado dessas
palavras para que elas não causem nenhum mal-entendido. Exigimos que a
religião torne-se um assunto privado em relação ao Estado, mas não
podemos de modo algum considerar a religião um assunto privado em
relação a nosso próprio partido. O Estado não deve manter conúbio com a
religião, e as sociedades religiosas não devem ligar-se ao poder
estatal. Cada um deve ser absolutamente livre para professar qualquer
religião ou para não reconhecer nenhuma, isto é, para ser ateu, o que
todo socialista geralmente é. São absolutamente inadmissíveis quaisquer
diferenças entre os cidadãos quanto a seus direitos conforme suas
crenças religiosas. Deve ser totalmente eliminada até mesmo qualquer
referência à religião dos cidadãos em documentos oficiais. Não deve
haver qualquer subvenção a uma Igreja estatal nem qualquer pagamento de
somas do Estado a sociedades eclesiásticas e religiosas, que devem
tornar-se associações de cidadãos correligionários absolutamente livres e
independentes das autoridades. Só a satisfação plena dessas
reivindicações pode acabar com aquele passado vergonhoso e maldito em
que a Igreja se encontrava numa dependência servil em relação ao Estado e
em que os cidadãos russos se encontravam numa dependência servil em
relação à Igreja estatal, em que existiam e eram aplicadas leis
medievais e inquisitoriais (que ainda hoje permanecem nos nossos códigos
e regulamentos penais) que perseguiam pessoas pela sua fé ou descrença,
que violavam a consciência do indivíduo e que vinculavam sinecuras e
rendimentos públicos à distribuição de uma ou outra “drogas” pela Igreja
estatal. Completa separação entre Igreja e Estado — eis a reivindicação
que o proletariado socialista apresenta ao Estado e à Igreja atuais.
A revolução russa deve realizar essa reivindicação como um
componente indispensável da liberdade política. Nesse aspecto, a
revolução russa situa-se em condições particularmente vantajosas, pois o
abominável burocratismo da autocracia policial-feudal causou
descontentamento, agitação e indignação até mesmo entre o clero. Por
mais embrutecido, por mais ignorante que fosse o clero ortodoxo russo,
até ele foi agora acordado pelo estrondo da queda da velha ordem
medieval na Rússia. Até ele adere à reivindicação de liberdade, protesta
contra o burocratismo e a arbitrariedade dos funcionários públicos e
contra a fiscalização policial imposta aos “servos de Deus”. Nós,
socialistas, devemos apoiar esse movimento, levando a cabo as
reivindicações dos membros honestos e sinceros do clero, cumprindo as
promessas de liberdade que lhes fizemos e exigindo deles que rompam
decididamente todos os laços entre a religião e a polícia. Ou vocês são
sinceros, e então devem defender a completa separação entre Igreja e
Estado, entre escola e Igreja, e a completa e incondicional declaração
da religião como um assunto privado; ou vocês não aceitam essas
consequentes reivindicações de liberdade, e então quer dizer que ainda
são prisioneiros das tradições da Inquisição, então quer dizer que ainda
se encostam às sinecuras e rendimentos públicos, então quer dizer que
vocês não acreditam na força espiritual de sua arma, continuam a
extorquir o poder estatal – então os operários conscientes de toda a
Rússia declarar-lhes-ão uma guerra implacável.
Em relação ao partido do proletariado socialista, a religião não é
um assunto privado. Nosso partido é uma associação de combatentes
conscientes e de vanguarda pela libertação da classe operária. Essa
associação não pode nem deve ser indiferente à inconsciência, à
ignorância ou ao obscurantismo das crenças religiosas. Reivindicamos a
completa separação entre Igreja e Estado para lutar contra o nevoeiro
religioso com armas tão-somente ideológicas, com nossa imprensa e com
nossa voz. Mas nós fundamos nosso partido, o POSDR, (2)
entre outras coisas, precisamente para essa luta contra o
entontecimento religioso dos operários. E para nós a luta ideológica não
é um assunto privado, mas um assunto de todo o partido e de todo o
proletariado.
Se é assim, por que não declaramos em nosso programa que somos
ateus? Por que não proibimos os cristãos e os que acreditam em Deus de
entrar em nosso partido? A resposta a essa pergunta deve esclarecer a
importantíssima diferença entre a maneira democrático-burguesa e a
social-democrata de colocar a questão da religião.
Nosso programa baseia-se todo numa concepção científica, a saber,
materialista do mundo. Por isso, o esclarecimento de nosso programa
necessariamente inclui também o esclarecimento das verdadeiras raízes
históricas e econômicas do nevoeiro religioso. Nossa propaganda também
inclui necessariamente a propaganda do ateísmo; a edição da literatura
científica correspondente, que o poder estatal autocrático-feudal
rigorosamente proibia e perseguia até agora, deve atualmente constituir
um dos ramos de nosso trabalho partidário. Teremos agora, provavelmente,
de seguir o conselho que Engels deu certa vez aos socialistas alemães:
traduzir e difundir maciçamente a literatura iluminista e ateísta
francesa do século XVIII. (3)
Mas ao fazê-lo jamais devemos cair no modo abstrato e idealista
de colocar a questão religiosa “a partir da razão”, fora da luta de
classes, como não raro é feito pelos democratas radicais da burguesia.
Seria um absurdo pensar que, numa sociedade baseada na opressão e no
embrutecimento infindáveis das massas operárias, pode-se dissipar os
preconceitos religiosos unicamente por meio da propaganda. Seria
estreiteza burguesa esquecer que o jugo da religião sobre a humanidade é
apenas produto e reflexo do jugo econômico que existe dentro da
sociedade. Nenhum livrete ou propaganda pode esclarecer o proletariado
se sua própria luta contra as forças obscuras do capitalismo não o
esclarecer. A unidade dessa luta realmente revolucionária da classe
oprimida pela criação do paraíso na terra é mais importante para nós do
que a unidade de opiniões dos proletários sobre o paraíso no céu.
Eis por que não declaramos nem devemos declarar nosso ateísmo em
nosso programa; eis por que não proibimos nem devemos proibir aos
proletários que conservaram vestígios dos velhos preconceitos de
aproximar-se de nosso partido. Sempre pregaremos a concepção científica
do mundo, e é indispensável que lutemos contra a incoerência dos
“cristãos”, mas isso não significa de modo algum que se deva pôr a
questão religiosa em primeiro lugar, o qual de maneira alguma lhe
pertence, nem que se deva permitir a dispersão das forças da luta
econômica e política realmente revolucionária por causa de opiniões ou
delírios insignificantes que perdem rapidamente todo significado
político e são rapidamente jogados no ferro-velho pelo próprio curso do
desenvolvimento econômico.
Em toda parte a burguesia reacionária inquietou-se e começa agora
também em nosso país a buscar atiçar a hostilidade religiosa, a fim de
desviar para ela a atenção das massas voltadas às questões econômicas e
políticas realmente importantes e fundamentais, as quais o proletariado
de toda a Rússia, praticamente unido em sua luta revolucionária, está
agora resolvendo. Essa política reacionária de dispersão das forças
proletárias, que hoje se manifesta principalmente nos pogroms das
Centúrias Negras, (4)
talvez pense amanhã em outras formas mais refinadas. Nós, em todo caso,
opor-lhe-emos uma propaganda tranquila, sóbria e paciente da
solidariedade proletária e da concepção científica do mundo, livre de
todo atiçamento de divergências secundárias.
O proletariado revolucionário conseguirá tornar a religião um
assunto realmente privado para o Estado, e nesse regime político
depurado do bolor medieval, travará uma luta forte e aberta pela
eliminação da escravidão econômica, verdadeira fonte do entontecimento
religioso da humanidade.
Notas (1) Sacerdotes ortodoxos. (N.T.)
(2) Partido Operário Social-Democrata da Rússia, que futuramente se tornaria o Partido Comunista soviético. (N.T.)
(3)
Ver artigo de Friedrich Engels, “Programa dos Refugiados Blanquistas da
Comuna” (artigo II da série “Literatura de Refugiados”). [N.T.: O
artigo pode ser encontrado em português em Karl Marx e Friedrich Engels,
Obras escolhidas em três tomos, tomo II, Lisboa, Avante; Moscou:
Progresso, 1983, pp. 411-418. A referência citada está na p. 415. A
mesma versão ainda está na rede nesta página.]
(4)
Movimento paramilitar ultranacionalista e xenófobo que suportava o
regime tsarista contra os movimentos revolucionários de oposição. (N.T.)
Vladímir Ilitch Lênin - Socialismo e religião
regime soviético e os regimes europeus do “socialismo real” erigidos em
1945. Sempre me interessei pelo pensamento de Vladímir Ilitch Uliánov,
ou Lênin, porque sendo o fundador da União Soviética, certamente me
forneceria alguma pista sobre a inspiração desses Estados. Também gosto,
no líder bolchevique, de sua enorme capacidade mental, de sua relativa
teimosia, de sua firmeza em meio às adversidades e, acima de tudo, de
sua aspiração sincera por um mundo melhor e mais justo, ainda que
tivesse cometido excessos em sua política, alguns, confessemos,
inevitáveis, outros nem tanto. Mas poucos condutores de massas
conseguirão superar a quantidade e a qualidade de seus escritos, por
constituírem autêntico conhecimento fresco extraído da prática imediata.
A visão comum é a de um Lênin perseguidor de religiosos, como o
seria Stálin em determinado período de seu governo e como o seriam
igualmente os outros chefes soviéticos do início dos anos 1960 até
Gorbatchov. De fato, a Revolução de Outubro de 1917 suprimiu a liberdade
de vários clérigos ortodoxos, mas deve-se lembrar que o momento era de
reação a um regime opressor e ineficiente, e a Igreja russa constituía
praticamente uma peça do aparelho de Estado tsarista. Mas “Socialismo e
religião”, embora repita o velho chavão “A religião é o ópio do povo”,
mostra alguém atento realisticamente à impregnação da fé em sua
sociedade, especialmente no proletariado, e ao quanto setores clericais
supostamente insatisfeitos com o controle estatal de seus assuntos
poderiam acatar a separação entre Igreja e Estado e a declaração da
religião como assunto privado. Em suma, mesmo sendo um ateu militante,
Lênin, teoricamente e a princípio, opta pela liberdade de expressão e de
consciência de todos aqueles que decidissem apoiar os socialistas em
sua luta contra a tirania, mesmo se sustentassem visões de mundo
distintas das da pretensa vanguarda revolucionária.
O artigo “Socialismo e religião” (título original: “Sotsializm i relíguia”) foi publicado primeiramente no número 28 da revista Nóvaia Jizn (Nova Vida), e a primeira versão em português (que eu conheço, claro), sem qualquer referência ao tradutor, saiu no site Marxists.org, extraída do site
do PCO. Notando que a tradução tinha algumas inadequações,
especialmente falta de fluidez, e percebendo a importância do artigo,
decidi começar a corrigi-la por conta própria, trabalho iniciado por
volta de março de 2011, mas, constantemente interrompido e por muito
tempo paralisado, concluído somente por volta de outubro. Neste link pode-se ter acesso a uma das inúmeras versões online do texto original em russo.
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A sociedade contemporânea baseia-se toda na exploração das enormes massas operárias por uma minoria insignificante da população,
pertencente às classes dos proprietários de terras e dos capitalistas.
Essa sociedade é escravista, pois os operários “livres”, que trabalham a
vida toda para o capital, “têm direito” apenas aos meios de
subsistência indispensáveis para sustentá-los como escravos produtores
do lucro e para assegurar e perpetuar a escravidão capitalista.
A opressão econômica dos operários gera inevitavelmente todas as
formas de opressão política, de humilhação social, de embrutecimento e
obscurecimento da vida espiritual e moral das massas. Os operários podem
alcançar uma liberdade política maior ou menor para lutar por sua
libertação econômica, mas nenhuma liberdade os livrará da miséria, do
desemprego e da opressão enquanto não for derrubado o poder do capital. A
religião é uma das formas de opressão espiritual que pesa em toda parte
sobre as massas esmagadas por seu perpétuo trabalho para outros, pelas
privações e pelo isolamento. A impotência das classes exploradas na luta
contra os exploradores gera tão inevitavelmente a fé numa vida melhor
após a morte como a impotência dos selvagens na luta contra a natureza
gera a fé em deuses, diabos, milagres etc. Àquele que toda a vida
trabalha e passa necessidades, a religião ensina a resignação e a
paciência na vida terrena, consolando-o com a esperança da recompensa
celeste. E àqueles que vivem do trabalho alheio, a religião ensina a
filantropia na vida terrena, propondo-lhes uma justificação muito barata
para sua existência de exploradores e vendendo-lhes a preço módico
bilhetes para a felicidade celestial. A religião é o ópio do povo. A
religião é uma espécie de aguardente espiritual ruim na qual os escravos
do capital afogam sua imagem humana e suas reivindicações de uma vida
minimamente digna.
Mas o escravo que se deu conta de sua escravidão e se ergueu para
a luta por sua libertação já deixou pela metade de ser escravo. O
operário consciente moderno, formado pela grande indústria fabril e
esclarecido pela vida urbana, repele com desprezo os preconceitos
religiosos e deixa o céu à disposição dos popes (1)
e dos carolas burgueses, conquistando uma vida melhor aqui na terra. O
proletariado moderno põe-se ao lado do socialismo, que se vale da
ciência na luta contra o nevoeiro religioso e liberta os operários da fé
na vida após a morte por meio de sua arregimentação para uma verdadeira
luta por uma vida terrena melhor.
A religião deve ser declarada um assunto privado — com essas
palavras se exprime habitualmente a atitude dos socialistas perante a
religião. Mas é preciso definir com exatidão o significado dessas
palavras para que elas não causem nenhum mal-entendido. Exigimos que a
religião torne-se um assunto privado em relação ao Estado, mas não
podemos de modo algum considerar a religião um assunto privado em
relação a nosso próprio partido. O Estado não deve manter conúbio com a
religião, e as sociedades religiosas não devem ligar-se ao poder
estatal. Cada um deve ser absolutamente livre para professar qualquer
religião ou para não reconhecer nenhuma, isto é, para ser ateu, o que
todo socialista geralmente é. São absolutamente inadmissíveis quaisquer
diferenças entre os cidadãos quanto a seus direitos conforme suas
crenças religiosas. Deve ser totalmente eliminada até mesmo qualquer
referência à religião dos cidadãos em documentos oficiais. Não deve
haver qualquer subvenção a uma Igreja estatal nem qualquer pagamento de
somas do Estado a sociedades eclesiásticas e religiosas, que devem
tornar-se associações de cidadãos correligionários absolutamente livres e
independentes das autoridades. Só a satisfação plena dessas
reivindicações pode acabar com aquele passado vergonhoso e maldito em
que a Igreja se encontrava numa dependência servil em relação ao Estado e
em que os cidadãos russos se encontravam numa dependência servil em
relação à Igreja estatal, em que existiam e eram aplicadas leis
medievais e inquisitoriais (que ainda hoje permanecem nos nossos códigos
e regulamentos penais) que perseguiam pessoas pela sua fé ou descrença,
que violavam a consciência do indivíduo e que vinculavam sinecuras e
rendimentos públicos à distribuição de uma ou outra “drogas” pela Igreja
estatal. Completa separação entre Igreja e Estado — eis a reivindicação
que o proletariado socialista apresenta ao Estado e à Igreja atuais.
A revolução russa deve realizar essa reivindicação como um
componente indispensável da liberdade política. Nesse aspecto, a
revolução russa situa-se em condições particularmente vantajosas, pois o
abominável burocratismo da autocracia policial-feudal causou
descontentamento, agitação e indignação até mesmo entre o clero. Por
mais embrutecido, por mais ignorante que fosse o clero ortodoxo russo,
até ele foi agora acordado pelo estrondo da queda da velha ordem
medieval na Rússia. Até ele adere à reivindicação de liberdade, protesta
contra o burocratismo e a arbitrariedade dos funcionários públicos e
contra a fiscalização policial imposta aos “servos de Deus”. Nós,
socialistas, devemos apoiar esse movimento, levando a cabo as
reivindicações dos membros honestos e sinceros do clero, cumprindo as
promessas de liberdade que lhes fizemos e exigindo deles que rompam
decididamente todos os laços entre a religião e a polícia. Ou vocês são
sinceros, e então devem defender a completa separação entre Igreja e
Estado, entre escola e Igreja, e a completa e incondicional declaração
da religião como um assunto privado; ou vocês não aceitam essas
consequentes reivindicações de liberdade, e então quer dizer que ainda
são prisioneiros das tradições da Inquisição, então quer dizer que ainda
se encostam às sinecuras e rendimentos públicos, então quer dizer que
vocês não acreditam na força espiritual de sua arma, continuam a
extorquir o poder estatal – então os operários conscientes de toda a
Rússia declarar-lhes-ão uma guerra implacável.
Em relação ao partido do proletariado socialista, a religião não é
um assunto privado. Nosso partido é uma associação de combatentes
conscientes e de vanguarda pela libertação da classe operária. Essa
associação não pode nem deve ser indiferente à inconsciência, à
ignorância ou ao obscurantismo das crenças religiosas. Reivindicamos a
completa separação entre Igreja e Estado para lutar contra o nevoeiro
religioso com armas tão-somente ideológicas, com nossa imprensa e com
nossa voz. Mas nós fundamos nosso partido, o POSDR, (2)
entre outras coisas, precisamente para essa luta contra o
entontecimento religioso dos operários. E para nós a luta ideológica não
é um assunto privado, mas um assunto de todo o partido e de todo o
proletariado.
Se é assim, por que não declaramos em nosso programa que somos
ateus? Por que não proibimos os cristãos e os que acreditam em Deus de
entrar em nosso partido? A resposta a essa pergunta deve esclarecer a
importantíssima diferença entre a maneira democrático-burguesa e a
social-democrata de colocar a questão da religião.
Nosso programa baseia-se todo numa concepção científica, a saber,
materialista do mundo. Por isso, o esclarecimento de nosso programa
necessariamente inclui também o esclarecimento das verdadeiras raízes
históricas e econômicas do nevoeiro religioso. Nossa propaganda também
inclui necessariamente a propaganda do ateísmo; a edição da literatura
científica correspondente, que o poder estatal autocrático-feudal
rigorosamente proibia e perseguia até agora, deve atualmente constituir
um dos ramos de nosso trabalho partidário. Teremos agora, provavelmente,
de seguir o conselho que Engels deu certa vez aos socialistas alemães:
traduzir e difundir maciçamente a literatura iluminista e ateísta
francesa do século XVIII. (3)
Mas ao fazê-lo jamais devemos cair no modo abstrato e idealista
de colocar a questão religiosa “a partir da razão”, fora da luta de
classes, como não raro é feito pelos democratas radicais da burguesia.
Seria um absurdo pensar que, numa sociedade baseada na opressão e no
embrutecimento infindáveis das massas operárias, pode-se dissipar os
preconceitos religiosos unicamente por meio da propaganda. Seria
estreiteza burguesa esquecer que o jugo da religião sobre a humanidade é
apenas produto e reflexo do jugo econômico que existe dentro da
sociedade. Nenhum livrete ou propaganda pode esclarecer o proletariado
se sua própria luta contra as forças obscuras do capitalismo não o
esclarecer. A unidade dessa luta realmente revolucionária da classe
oprimida pela criação do paraíso na terra é mais importante para nós do
que a unidade de opiniões dos proletários sobre o paraíso no céu.
Eis por que não declaramos nem devemos declarar nosso ateísmo em
nosso programa; eis por que não proibimos nem devemos proibir aos
proletários que conservaram vestígios dos velhos preconceitos de
aproximar-se de nosso partido. Sempre pregaremos a concepção científica
do mundo, e é indispensável que lutemos contra a incoerência dos
“cristãos”, mas isso não significa de modo algum que se deva pôr a
questão religiosa em primeiro lugar, o qual de maneira alguma lhe
pertence, nem que se deva permitir a dispersão das forças da luta
econômica e política realmente revolucionária por causa de opiniões ou
delírios insignificantes que perdem rapidamente todo significado
político e são rapidamente jogados no ferro-velho pelo próprio curso do
desenvolvimento econômico.
Em toda parte a burguesia reacionária inquietou-se e começa agora
também em nosso país a buscar atiçar a hostilidade religiosa, a fim de
desviar para ela a atenção das massas voltadas às questões econômicas e
políticas realmente importantes e fundamentais, as quais o proletariado
de toda a Rússia, praticamente unido em sua luta revolucionária, está
agora resolvendo. Essa política reacionária de dispersão das forças
proletárias, que hoje se manifesta principalmente nos pogroms das
Centúrias Negras, (4)
talvez pense amanhã em outras formas mais refinadas. Nós, em todo caso,
opor-lhe-emos uma propaganda tranquila, sóbria e paciente da
solidariedade proletária e da concepção científica do mundo, livre de
todo atiçamento de divergências secundárias.
O proletariado revolucionário conseguirá tornar a religião um
assunto realmente privado para o Estado, e nesse regime político
depurado do bolor medieval, travará uma luta forte e aberta pela
eliminação da escravidão econômica, verdadeira fonte do entontecimento
religioso da humanidade.
(2) Partido Operário Social-Democrata da Rússia, que futuramente se tornaria o Partido Comunista soviético. (N.T.)
(3)
Ver artigo de Friedrich Engels, “Programa dos Refugiados Blanquistas da
Comuna” (artigo II da série “Literatura de Refugiados”). [N.T.: O
artigo pode ser encontrado em português em Karl Marx e Friedrich Engels,
Obras escolhidas em três tomos, tomo II, Lisboa, Avante; Moscou:
Progresso, 1983, pp. 411-418. A referência citada está na p. 415. A
mesma versão ainda está na rede nesta página.]
(4)
Movimento paramilitar ultranacionalista e xenófobo que suportava o
regime tsarista contra os movimentos revolucionários de oposição. (N.T.)
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