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UCRÂNIA: Decadência e fúria: três notas sobre o imperialismo norte-americano- "EUA voltam ao centro da nova guerra fria contra governos não alinhados".

Segundo estimativas, após 11 de setembro de 2001, quando ocorreram os atentados às Torres Gêmeas e ao Pentágono, os EUA aumentaram em cerca de 20% sua presença militar ao redor do mundo. Estima-se também que por volta de 300 mil soldados estejam em bases militares americanas em mais de 140 países.
Em meio ao cenário fervente de desestabilização política, em especial na região do Mar Negro, os EUA voltam ao centro da nova guerra fria contra governos não alinhados, enquanto tenta gerenciar questões econômicas incontornáveis. A. Sérgio Barroso faz apontamentos sobre as implicações destas contradições ao imperialismo norte-americano.
“(...) e, você sabe, que se foda a União Europeia” (Victoria Nuland, vice-secretária norte-americana de Estado para Assuntos Europeus, a Geoffrey Pyatt, embaixador dos EUA na Ucrânia, 8/2/2014).
1. Já havia sublinhado: o prolífico historiador britânico Niall Ferguson (direita, ex-assessor de J. McCain), o polonês-estadunidense e estrategista fanático do império americano Z. Brzezinski, e o comunista e ex-premiê chinês W. Jiabao (“O século XXI será o século asiático”, dissera) convergem – matizadamente, enfatize-se - na interpretação acerca do processo de decadência da civilização ocidental, vis-à-vis a ascensão Oriental. No centro e nitidamente, o processo de declínio imperial dos EUA.

Parte fundamental da controversa problemática apontada, do ponto de vista estrutural, poderia ser captada por declarações como a que segue e feitas posteriormente pelo mesmo Ferguson:

- “A China superará Alemanha em termos de patente reconhecidas internacionalmente nos próximos dois anos, graças ao grande esforço por parte das instituições educacionais do país, como a instituição em que o David [Li] trabalha, para melhorar o nível de pesquisa e desenvolvimento e formar mais PhDs. E não estou falando de PhDs em comunicação, mas PhDs em engenharia e física” (em: O século XXI pertence à china? Um debate sobre a potência asiática - Henry Kissinger, Niall Ferguson, Fareed Zakaria, David Li (Elsevier/Campus, 2012 [2011], pp.52-3)
Essas interpretações sobre o cenário geoestratégico global trespassam às declarações (novembro de 2011) carregadas de ameaças à China, de Barack Obama, na Austrália. Obama afirmou que o anúncio da força militar conjunta e sua viagem à região Ásia-Pacífico é um claro sinal para os aliados dos Estados Unidos na região. “Somos duas nações do Pacífico e com a minha visita à região quero provar que os Estados Unidos vão aumentar seus compromissos com toda região Ásia-Pacífico”, declarou dedo em riste. E prosseguiu o chefão do império: “O fortalecimento de nossa aliança envia uma mensagem clara de nosso compromisso com esta região, um compromisso não perecível e indestrutível”.

Seguiram-se decisões (“verbais”) de severa redução no orçamento militar (cerca de U$ 500 bilhões em dez anos) e de quase 40% das tropas dispostas em suas bases estrangeiras, o caráter nevrálgico do sistema de alianças asiático emergiu com toda a força. Segundo discursara Obama, a relocalização dos alvos militares norte-americanos estratégicos naquela região passou a prioridade número um. Ocorrendo o mesmo para a disponibilização da sofisticação técnica da máquina de guerra imperialista, no sentido de concentrar o seu foco na região asiática.

2. Em seu mais recente (e notável) livro do professor Moniz Bandeira, o embaixador Samuel Guimarães adverte já cursar uma disputa pela hegemonia mundial entre o ocidente capitalista e estagnado, e o oriente capitalista dinâmico e subdesenvolvido. [1] Entretanto, o império americano visa e sustenta entre seus objetivos estratégicos:

- Manter sua hegemonia militar em todas as regiões do globo (forças terrestres, navais e aéreas para bloquear a emergência de Estados militares rivais opositores e dissuasores que ameacem os EUA usar a força. Operam no sentido de desarmar ou intimidar Estados periféricos pretextando redução das tensões e defesa da segurança e da paz internacional. Possuem hoje 750 bases militares no planeta, 1,4 milhão de soldados, com 350.000 em 130 países.

Sob esse imbróglio militarização/déficit público crescente, no debate elencado acima (“O século XXI...”, p. 76), Ferguson faz ainda questão de advertir, aludindo a um artigo de Jim Backer, articulista do Wall Street Journal: conclui Backer [em 2011] que em nove anos os EUA estariam gastando mais em juros da dívida federal que em segurança nacional.

Assim, esclarecedora a entrevista recentíssima do atual secretário de defesa dos EUA, Chuck Hagel, anunciando que seu país “depois de 13 anos de guerra – o conflito mais longo na história de nossa nação” (Afeganistão e Iraque), os EUA teriam o primeiro orçamento militar refletindo “totalmente a transição que o Departamento de Defesa está fazendo”. E que os chefes militares não mais “planejam levar a cabo extensas e longas operações de estabilização”. A modernização do Exército norte-americano – disse ele - passa necessariamente pela maior destinação de recursos ao desenvolvimento de drones (aviões não tripulados), à ciber-defesa e às novas tecnologias que assegurariam manter a hegemonia no campo militar frente à China e seu emergente militarismo (“O Pentágono prevê reduzir o Exército a níveis prévios à II Guerra Mundial”, Y. Monge, El País on-line, 24/02/2014).

Percebe-se, noutra faceta, a política belicista dos EUA perpassar toda a construção das linhas de forças estratégicas, em defesa de sua hegemonia contra a China. Nos próximos 22 e 23 de abril Obama estará em Tóquio com preestabelecido objetivo de sancionar e respaldar a “nova” politica de Shinzo Abe: reinterpretar o Artigo 9.º da Constituição, que impõe claras restrições às forças militares nacionais do Japão ao afirmar que o povo japonês “renuncia para sempre da guerra como um direito soberano e a ameaça ou uso da força como meio de solução de disputas internacionais”; por isso, de acordo com o artigo, “não serão mantidas forças de terra, naval e aérea”. “O direito de beligerância do Estado não será reconhecido”.

Desse modo, informa-se que (“Contra China, Japão busca se rearmar”, Denise Chrispim Marin, enviada especial a Tóquio, O Estado de S.Paulo, 23/02/2014) o relatório final permitirá às “Forças de Autodefesa” do país, agora com nova interpretação da Constituição, “defender países aliados e nações amigas se houver um pedido formal e se os interesses japoneses nesses locais estiverem ameaçados”. Enquanto o premiê imperialista Abe declarou ao Comitê de Orçamento da Câmara dos Deputados: sua condição lhe confere autoridade para adotar uma nova interpretação da Constituição.

3. Com vinte anos de correspondência (“La Vanguardia”, Espanha), na Rússia, conta o jornalista Rafael Poch em “El cuaderno de Kiev” que a própria Victoria Nuland (pornográfica vice-secretária de Estado americana) admitiu que desde o fim da União Soviética os EUA financiaram com cerca de US$5 bilhões todo o tipo de atividade subversiva na Ucrânia. Noutro viés, diz claramente Poch:

- “A jornada em Kíev foi uma espécie de 4 de outubro de 1993 moscovita. Naquele dia, Boris Yeltsin aplastou a sua oposição após um golpe de estado presidencialista que deixou mais de uma centena de mortos, com o apoio e aplauso do Ocidente”.
 
A Ucrânia é o meio do caminho do gás entre a Rússia e a União Europeia.


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Artigo original: Fundação Maurício Grabois -Decadência e fúria: três notas sobre o imperialismo norte-americano- Por A. Sérgio Barroso (Clique aqui para ver o artigo original na íntegra)

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