Pular para o conteúdo principal

Como seria o diálogo entre Karl Marx e um economista contemporâneo?

O ECONOMISTA COXINHA E A TEORIA DO VALOR TRABALHO DE KARL MARX: UM APARENTE DIÁLOGO.
  

Como seria o diálogo entre Karl Marx e um economista contemporâneo? Trata-se de um artifício imaginário para esmiuçar as ideias marxistas e apresentá-las de maneira mais fácil, direta e objetiva. 
Na verdade, não sei como seria o diálogo, mas adotei como pressuposto que: (a) a conversa seria muito breve; (b) o economista seria o profissional “padrão da área”, ou teria sido “o aluno exemplar” (ou seja, o exagero e a estigma são propositados) e (c) não haveria compreensão, pelo economista, sobre os “fenômenos” apresentados por Marx.

O Caminho da Servidão é um livro escrito por Friedrich Hayek, vencedor do prêmio Nobel de Economia de 1974, destacando-se como uma das obras de referência na defesa do liberalismo clássico ou liberalismo económico. É importante notar que, no prefácio da sua edição original, o autor admite que o conteúdo do livro é essencialmente político, e afirma desejar não disfarçá-lo sob o rótulo de filosofia social.
O pano de fundo por trás do modo de produção capitalista apresentado por Marx é a existência de um mundo da essência e da aparência (na linguagem platônica). Aos olhos de Marx, os economistas burgueses apenas e tão-somente enxergam os fenômenos, esquecendo a relação social que sustenta o modo de produção capitalista.
Trata-se de uma nova aplicação do conceito de alienação de Marx, muito similar a crítica à religião. Ele apontou a ilusão em que vive o sujeito econômico e descobriu uma realidade falsa, que presta contas do mundo falso em que vivem os sujeitos econômicos. O mundo falso esconde a mais valia e a exploração, e a tomada de consciência provocaria com que eles não se reconhecessem mais como tais.
Portanto, o próprio Marx já assinalou que o seu “o capital” é a crítica à economia política fundada na distinção entre realidade essencial do mundo do valor, da exploração e da mais-valia e o mundo dos fenômenos, do capital, dos rendimentos e de tudo o que segue. A dificuldade em aceitar essa distinção é que para a ciência econômica, e os economistas dos nossos dias atuais, tal distinção é absolutamente incompreensível. Se eu fizer a pergunta:
- O que significa a distinção entre fenômenos do capitalismo e a sua aparência? Ele me responderá:
- Absolutamente nada! No pensamento econômico de hoje, tal distinção é destituída de significação.
Creio que o motivo disso é porque o economista de hoje é do tipo positivista e operacional, só opera conceitos que cubram realidades fenomenais. Se falarem:
- Você está deixando de lado a essência e só aprende realidades fenomenais! Ele nem sequer sabe o que isso quer dizer. Portanto, a distinção entre aparência e essência são elementos sem sentido.
Se partirmos da ideia de que o valor de uma mercadoria é proporcional à quantidade do trabalho social investido nessa mercadoria, objetam-nos imediatamente:
- E o que fazemos das diferenças de qualidade? Como se reduz a uma unidade quantitativa tanto o trabalho de um inventor ou de um especialista em seu laboratório quanto o trabalho de um varredor de rua? Ou seja, a quantificação do trabalho em termos de quantidade de trabalho social é uma redução puramente conceitual e absolutamente não operacional.
Para o economista de hoje um conceito só tem valor quando é possível apreender sua medida.
Se afirmarmos:
- O valor de uma mercadoria é proporcional à quantidade de trabalho social médio investido nessa mercadoria. Acredito que o contraponto será que nunca se poderá alcançar o valor da mercadoria, porque a noção de redução a um trabalho social médio é uma redução que se pode praticar de maneira conceitual, mas não operacional, porque ninguém sabe qual é a relação que se deve estabelecer entre o trabalho do engenheiro que desenha um avião e uma hora de trabalho do varredor da empresa.
A noção, então, de proporcionalidade do valor à quantidade de trabalho social investido em uma mercadoria é uma noção filosófica que provoca no economista 2 reações:
A primeira é “lá vem você com sua filosofia”;
A segunda, “faça o cálculo, então, da sua proposição”.
E como se calcula? Não pode ser calculado.
Por fim, o economista ainda dirá:
- Valor como elemento regulador dos preços exige a presença de, pelo menos, 2 elementos que influem na determinação dos preços: de um lado, os elementos físicos, como a natureza, no caso das matérias-primas ou produtos agrícolas; de outro, o tempo.
Além, dirá o economista para concluir:
- Todos sabem que o preço não depende somente da quantidade de trabalho social investido ou do custo da produção, mas igualmente da oferta e da procura.
Veja só: uma teoria científica só é escolhida se for simplificadora. Então, como fica a teoria do valor-trabalho? Ora, deveria pegar a teoria valor-trabalho e para pô-la de acordo com a realidade. Com isso seria acrescentado uma dúzia de variáveis... A resposta do cientista seria:
- Não é melhor tomar outro ponto de partida? E dizer que os preços são determinados por uma pluralidade de variáveis, em vez de se partir de uma variável única que, além de tudo, não é quantificável? Assim é porque o economista positivista desconsidera a teoria valor-trabalho.
Avisar ao economista: “estamos falando da essência e não da aparência”. Ele dirá:
- Não sei do que você está falando!
Um economista quer dar conta dos fenômenos e pode manipulá-los estatisticamente sob a forma de variáveis dentro de modelos. Como todo cientista, ele se define pela análise científica da relação entre fenômenos e sua manipulação. Se pegarmos a inflação como fenômeno típico, ele indicará os 3 ou 4 modelos segundo os quais se cria uma pressão inflacionária, depois as diferentes políticas para reduzir a pressão inflacionária. Se, diante desse economista moderno, vem um marxista e diz: “você só se preocupa com fenômenos”, ele responderá: “é claro, com que mais me preocuparia, e com que mais se preocuparia um cientista da minha área se não fosse com os fenômenos econômicos?”. Na medida em que se avisar ao economista que se trata de uma crítica à economia política, porque se captou a essência dos fenômenos, ele não saberá muito bem o que isso quer dizer; então, ele afasta a questão, porque é inútil para ele.
O mesmo raciocínio pode ser encarado para a questão do valor da força de trabalho. Lembre-se do argumento - pressuposto: o capitalista não compra uma quantidade de trabalho, porque aí não haveria excedente, mas uma força de trabalho. Esta força de trabalho é, por assim dizer, um valor de uso do próprio operário, que produz durante uma jornada um valor superior ao seu próprio valor. Lógico que iriam perguntar:
- Pode-se determinar o valor da força de trabalho? Porque para haver uma demonstração científica da exploração é preciso que haja uma demonstração científica do que é o valor da força de trabalho. A demonstração de Marx é: o valor da força de trabalho é o valor encarnado nas mercadorias necessárias para a vida do operário e da sua família.
Portanto, para o economista de hoje, todas essas distinções, tão logo seja afastada a noção de essência-aparência, nada são que construções inúteis. Para ele, tudo não passa de uma maneira complicada ou falsa de apreender a realidade, com ajuda de conceitos que, na maior parte, são rigorosamente não-operacionais.
Marx parte de fórmulas de economistas, hoje considerados clássicos, para dar um significado filosófico e, principalmente, político à economia. Logo, o que significa a teoria da mais valia? Significa que, em um regime fundado sobre a propriedade privada, os instrumentos de produção, os fundos necessários para a acumulação, passam pela intermediação dos recursos privados. O regime capitalista é um regime em que os detentores do capital compram a força de trabalho, dão trabalhos aos operários e no fim buscam o lucro. Disso, tiramos algumas conclusões:
O fato dos lucros serem privados se traduzem em despesas luxuosas dos detentores de lucros, nada investindo ou o fazendo muito pouco. Isto contribui para a estagnação da economia capitalista.
Há concorrência entre os produtores. Para agüentá-las, eles acumulam ao máximo. Para obter o máximo lucro dessa acumulação, reduzem salários ao mínimo possível.
Todavia, é bom lembrar que no sistema capitalista, a concorrência obriga os empresários a renovar seus meios de produção e, portanto, acumular a maior parte da mais valia. E isso (novamente) destrói produção, a pesquisa, os recursos naturais etc. Mas para o economista moderno, esses “detalhes” são objetos (a) da eficiência de Pareto na avaliação das alocações econômicas (muito embora a eficiência de Pareto não tenha nada a dizer, no mínimo, sobre bem – estar entre as pessoas, até porque fornecer tudo para uma única pessoa será eficiente), (b) ou do somatório de bem –estar individual forma-se o coletivo, (c) ou ainda uma representação da externalidade.




__________________
Licença Creative CommonsÉ permitido o compartilhamento desta publicação e até mesmo a edição da mesma. Sem fins lucrativos e cite a fonte. Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

''A ESCOLA DO MUNDO AO AVESSO'' - De pernas pro ar, Eduardo Galeano + Download livro em PDF

''O MUNDO AO AVESSO'' Eduardo Hughes Galeano (Montevidéu, 3 de setembro de 1940) é um jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de quarenta livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Suas obras transcendem gêneros ortodoxos, combinando ficção, jornalismo, análise política e História. “Esse livro é uma patada em cima da outra”. E m “De Pernas Pro Ar”, Galeano exerce todo seu conhecimento da cultura e política da América Latina sob o olhar atento de alguém que, desde 1971, com “As veias abertas da América Latina” vem criticando a exploração de nossa sociedade pelo assim por Deleuze chamado de Capitalismo Mundial Instituído. O mundo ao avesso é um mundo trágico, onde tudo acontece, um mundo onde não há resistência e sim apenas conformidade e visões distorcidas, em outras palavras, a escola do mundo ao avesso é a "contra escola existente". "O mundo ao avesso gratifica o avesso: despreza a honestidade, ...

VISÕES E VERSÕES: ''Fundação do Papai Noel"- A Coca-Cola e a versão de Rabdon Sunblom

VERSÕES   Por que 25 de dezembro? Conforme Funari, o Natal é derivado de uma festa muito anterior ao cristianismo e ao calendário do ciclo solar. De acordo com o pesquisador, os pagãos comemoravam na época do solstício de inverno (o dia mais curto do ano e que, no hemisfério norte, ocorre no final de dezembro) porque os dias iriam começar a ficar mais longos. "É uma celebração que tem a ver com o calendário agrícola, originalmente. E, como todo calendário agrícola, ele está preocupado com a fertilidade do solo e a manutenção do ciclo da natureza", diz o professor. Em Roma, essa data era associada ao deus Sol Invictus, já que após o dia mais curto do ano o sol volta a aparecer mais. Quanto ao cristianismo, a comemoração do nascimento de Jesus Cristo só começou a ocorrer no século IV, quando o imperador Constantino deu fim à perseguição contra essa religião. Os religiosos então usam a comemoração pagã e a revestem com simbolismo cristão. Curiosamente, afirma o pesquis...

CHARGE: A indústria e a alienação do trabalho

A indústria e a alienação do trabalho A charge de Caulos, de 1976, apresenta uma crítica bem humorada ao processo de alienação do trabalho sofrido pelos operários nas fábricas. Fonte original: Caulos. Só dói quando eu respeiro. Porto Alegre: L&PM, 1976.p. 65. Digitalização: Fernanda E. Mattos, autora e colunista do blog Um quê de Marx. É permitido o compartilhamento desta publicação e até mesmo a edição da mesma. Sem fins lucrativos e cite a fonte. Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional .