Pular para o conteúdo principal

Karl Marx na “Questão Judaica”: Contexto e ideias centrais do livro.

Ilustração de Tavarez. Acesse a página, clique aqui

Procuraremos demonstrar que a dimensão de Marx na “Questão Judaica”, entre outros pontos, busca criticar: (a) a noção de direitos humanos como separada do indivíduo que vive na sociedade; (b) a emancipação puramente política, que transforma a vida política em um simples meio a serviço da vida na sociedade civil, transformando o Estado político em uma esfera celestial ou imaginária; e (c) a própria sociedade civil enquanto esfera do egoísmo, de um mundo de indivíduos isolados. Para isso, utiliza o argumento metafórico da religião ou, se preferir, dialoga com Bruno Bauer e o pressuposto de que a emancipação humana requer a emancipação da religião.

Houve neste site um interessante debate sobre religião, religiosidade, catolicismo e judaísmo a partir de algumas publicações e comentários de trechos do Livro “A Questão Judaica”, de Karl Marx.
Tal debate não me passou despercebido. Tomo a ousadia de me opor ao debate travado neste site “Um Quê de Marx”. E explico o porquê: alguns detratores de Marx utilizavam trechos descontextualizados do livro “A Questão Judaica” para acusá-lo de antissemita e aproximá-lo do nazismo. Valendo-se do senso-comum, boa-fé e até da falta de um mínimo de leitura e debate do livro, tornava-se “fácil” para os caluniadores associar o falso antissemitismo com o “nacional socialismo de Hitler”, bastava juntar trechos isolados, descontextualizados com a nomenclatura do partido dos nazi.
Evidentemente que na esfera acadêmica tal não prosperou, seja por causa do combate dos intelectuais de esquerda, seja por causa de alguns pensadores liberais que, com honestidade intelectual, não se prestaram a tal finalidade. Cite-se o exemplo de Raymond Aron e Isaih Berlin.
Por sua vez, até hoje é comum que certos sítios da web, em defesa do povo palestino, também utilizem trechos descontextualizados para não só injuriar a religião judaica, mas utilizar Marx como argumento de autoridade contra o judaísmo.
Portanto, meu artigo semanal, quiçá inovando em uma espécie de “ombudsman”, procura contextualizar e identificar as ideias centrais do referido livro. Vejamos:
Para compreender o trecho (que se tornou o livro) é fundamental ter claro os dois conceitos que dão título à seção. Bruno Bauer fez confusão, pois correlacionou a emancipação política da religião com a emancipação humana da religião. Karl Marx queria respondê-lo. Por sua vez, historicamente devemos nos situar ainda na contínua transição do feudalismo para o capitalismo, pois encontramos naquele período a Europa ocidental em pleno período capitalista mantendo marcas feudais. E o Estado feudal europeu foi um Estado religioso, mais especificamente um Estado cristão. A igreja católica era o senhor feudal chefe.
Aprofundando um pouco mais: No que toca ao texto de Karl Marx “A Questão Judaica”, o objeto central é a reflexão sobre a dicotomia entre o Estado e a sociedade civil e sua relação com a emancipação política e emancipação humana.
Para tanto, Marx nos conduz através de um diálogo travado com Bruno Bauer sobre emancipação política e emancipação humana. O ponto inicial era o debate sobre a emancipação do povo judeu diante de um Estado alemão cristão. Bauer acreditava que, primeiramente, era necessário o abandono da religião para se conquistar a emancipação política, visto que não faria sentido o judeu cobrar do Estado uma postura laica, enquanto ele próprio não abandonasse o judaísmo. Por seu turno, Marx nos aponta que a Alemanha da época era um Estado imperfeito, justamente porque religioso. Na França, o Estado não professava nenhuma religião, mas declarava a religião da maioria, daí chamá-lo de “meia emancipação política”. Os Estados Unidos seria um Estado politicamente acabado, pois não professava nenhuma religião e não declarava a religião da maioria, além de não atribuir qualquer tipo de destaque a um culto em relação a outro culto, e, ainda assim, os Estados Unidos se apresentavam como o país de elevada religiosidade.
O que Marx queria demonstrar era que quando o Estado se liberta da religião, não necessariamente o indivíduo se liberta da religião, apenas obteve a liberdade religiosa ou a liberdade de professar livremente o seu culto; isto é, a emancipação política da religião não significa a emancipação humana da religião, cujos Estados Unidos é um claro exemplo. Portanto, Marx se contrapõe a Bruno Bauer.
Ora, Marx quer transmitir a seguinte idéia: “o problema das relações da emancipação política com a religião converte-se, para nós, no problema das relações da emancipação política com a emancipação humana. (...) O limite da emancipação política manifesta-se imediatamente no fato de que o Estado pode livrar-se de um limite sem que o homem dele se liberte realmente, no fato de que o Estado pode ser um Estado livre sem que o homem seja um homem livre. (...) O Estado anula, a seu modo, as diferenças de nascimento, de status social, a cultura e a ocupação do homem como diferenças não políticas, ao proclamar todo membro do povo, sem atender a estas diferenças, co-participante da soberania popular em base de igualdade (...). O Estado político acabado é, pela própria essência, a vida genérica do homem em oposição a sua vida material. (...) Onde o Estado já atingiu seu verdadeiro desenvolvimento, o homem leva, não só no plano do pensamento, da consciência, mas também no plano da realidade, da vida, uma dupla vida: uma celestial e outra terrena, a vida na comunidade política, na qual ele se considera um ser coletivo, e a vida na sociedade civil, em que ele atua como particular.” (MARX – 1, p.20, 21 e 23)
Ou seja, o homem se liberta da religião, através de um Estado que garante a sua emancipação política, mas continuará membro de uma sociedade civil que, por exemplo, poderá seguir atada à religião. Vê-se de modo claro que uma coisa é emancipação política e outra coisa é emancipação humana.
Ademais, Marx sinaliza de modo explícito que a emancipação política via o Estado não reflete as diferenças que existem na sociedade civil, pelo contrário, criam-se abstrações dessas diferenças ao se declarar que todos os homens são iguais perante a lei. Ora, o indivíduo na sociedade civil tem uma vida dupla: como membro do Estado leva uma vida genérica, é um ser coletivo (cidadão ou sujeito de direito), enquanto que como titular da sociedade tem uma vida dos seus interesses particulares, de sua esfera privada (professor, médico, gari, diarista).
Assim é que na esfera da sociedade um banqueiro é diferente do bancário, o engenheiro do peão e o rico do pobre, mas enquanto membros do Estado, o banqueiro, bancário, engenheiro, peão, rico e pobre são todos iguais, de modo que o Estado, então, cria uma abstração que camufla, esconde, essas diferenças, motivo pelo qual Marx diz que o indivíduo membro do Estado é um ser abstrato, inclusive que leva uma vida ideal ou imaginária.
Portanto, a emancipação meramente política, referendada pelo Estado, como propõe Bauer, é vista por Marx como insuficiente. Obtendo plenos direitos políticos o judeu, por exemplo, como membro da sociedade civil continuará separado do Estado. A emancipação humana buscada por Marx é aquela que permite a absorção do cidadão abstrato pelo homem individual, que faz deste, em sua vida cotidiana, um ser genérico solidário com os seus semelhantes (MARX - 1,p.42).
Em suma: pelo lado de Marx, podemos dizer que no plano teórico mais geral, “A Questão Judaica” reafirma a orientação presente na “crítica à filosofia do direito de Hegel”, no sentido de que se cristalizou a oposição entre Estado e sociedade civil, isto é, com o advento das revoluções burguesas, os negócios do Estado transformaram-se em negócios do povo, constituindo-se o Estado político como esfera encarregada dos assuntos gerais. “Consumou-se, assim, a separação entre o ‘idealismo do Estado’ (o interesse geral, o assunto público) e o ‘materialismo da sociedade’ (os indivíduos egoístas entregues à sua vida privada). Com base nisso, desaparece o antigo caráter político da sociedade civil: a emancipação política foi justamente ‘a emancipação da sociedade burguesa frente à política’.” (FREDERICO – 2, p. 96).
Lembre-se que Marx é dialético, e isso é a dialética da vida. Explico o que Marx quer dizer: para que o homem obtenha a liberdade religiosa, o Estado tinha de ser declarado ateu ou laico. Paradoxalmente, ao se afirmar a liberdade religiosa, haverá de se afirmar o seu contrário: o ateísmo (laicismo) de Estado. Portanto, a emancipação política da religião não envolve a emancipação humana da religião. Apenas assumiu o oposto: o Estado virou ateu e religioso profunda e amplamente.
Para o Marx “Da Questão Judaica”, longe de se discutir a religiosidade ou uma religião específica, tal como parece ter sido o foco de “Um Quê de Marx”, o ponto central é que a necessidade da emancipação humana esbarra, exatamente, na existência do Estado político enquanto órgão ainda visto como separado da sociedade civil. 
Esse Estado continua sendo uma esfera celestial. Contudo, o ponto central para Marx é a emancipação humana – por ser a única capaz de superar as contradições presentes na sociedade entre a existência individual sensível (sociedade civil) e a existência genérica dos indivíduos (sujeito político ou cidadão), e que isso se dá quando o indivíduo reconhece e organiza sua própria força como força social, não separando a força social na forma de força política (MARX - 1).





Referências: (1) MARX. Karl. A questão judaica. Centauro editora, São Paulo, 5º edição, 2005.
(2) FREDERICO, Celso. O jovem Marx: 1843-44 as origens do ser social. Cortez editora, São Paulo, 1995.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

''A ESCOLA DO MUNDO AO AVESSO'' - De pernas pro ar, Eduardo Galeano + Download livro em PDF

''O MUNDO AO AVESSO'' Eduardo Hughes Galeano (Montevidéu, 3 de setembro de 1940) é um jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de quarenta livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Suas obras transcendem gêneros ortodoxos, combinando ficção, jornalismo, análise política e História. “Esse livro é uma patada em cima da outra”. E m “De Pernas Pro Ar”, Galeano exerce todo seu conhecimento da cultura e política da América Latina sob o olhar atento de alguém que, desde 1971, com “As veias abertas da América Latina” vem criticando a exploração de nossa sociedade pelo assim por Deleuze chamado de Capitalismo Mundial Instituído. O mundo ao avesso é um mundo trágico, onde tudo acontece, um mundo onde não há resistência e sim apenas conformidade e visões distorcidas, em outras palavras, a escola do mundo ao avesso é a "contra escola existente". "O mundo ao avesso gratifica o avesso: despreza a honestidade, ...

VISÕES E VERSÕES: ''Fundação do Papai Noel"- A Coca-Cola e a versão de Rabdon Sunblom

VERSÕES   Por que 25 de dezembro? Conforme Funari, o Natal é derivado de uma festa muito anterior ao cristianismo e ao calendário do ciclo solar. De acordo com o pesquisador, os pagãos comemoravam na época do solstício de inverno (o dia mais curto do ano e que, no hemisfério norte, ocorre no final de dezembro) porque os dias iriam começar a ficar mais longos. "É uma celebração que tem a ver com o calendário agrícola, originalmente. E, como todo calendário agrícola, ele está preocupado com a fertilidade do solo e a manutenção do ciclo da natureza", diz o professor. Em Roma, essa data era associada ao deus Sol Invictus, já que após o dia mais curto do ano o sol volta a aparecer mais. Quanto ao cristianismo, a comemoração do nascimento de Jesus Cristo só começou a ocorrer no século IV, quando o imperador Constantino deu fim à perseguição contra essa religião. Os religiosos então usam a comemoração pagã e a revestem com simbolismo cristão. Curiosamente, afirma o pesquis...

CHARGE: A indústria e a alienação do trabalho

A indústria e a alienação do trabalho A charge de Caulos, de 1976, apresenta uma crítica bem humorada ao processo de alienação do trabalho sofrido pelos operários nas fábricas. Fonte original: Caulos. Só dói quando eu respeiro. Porto Alegre: L&PM, 1976.p. 65. Digitalização: Fernanda E. Mattos, autora e colunista do blog Um quê de Marx. É permitido o compartilhamento desta publicação e até mesmo a edição da mesma. Sem fins lucrativos e cite a fonte. Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional .