"O século americano acabou": A contradição principal da nova ordem mundial + ''TIPOS DE CAPITALISMO''
Esta postagem é baseada no texto de Žižek: A contradição principal da nova ordem mundial,
aproveitamos e enfatizamos os tipos de capitalismo em países como EUA, Brasil,
China.
Žižek: A contradição principal da nova ordem mundial
É também compreender como funciona sua aplicação: saber quando usar e quando violar as normas, saber quando recusar uma escolha oferecida e saber quando fingir que está se fazendo algo por livre escolha quando trata-se efetivamente de uma obrigação. Considere o paradoxo, por exemplo, das “ofertas-feitas-para-serem-recusadas”. Quando sou convidado a um restaurante por um tio rico, ambos sabemos que ele cuidará da conta, mas devo mesmo assim insistir em rachar ela – imagine minha surpresa se meu tio simplesmente dissesse: “Ok, então, pode pagar!”
Houve um problema semelhante
durante os caóticos anos pós-soviéticos do governo Yeltsin na Rússia. Embora as
regras legais fossem sabidas – e eram em larga medida as mesmas que vigoravam
sob a União Soviética –, desintegrou-se a complexa rede de regras implícitas, tacitamente
aceitas, que sustentava o edifício social. Na União Soviética, se você
quisesse, digamos, um tratamento hospitalar melhor, ou um apartamento novo, se
você tivesse uma reclamação sobre as autoridades, havia sido convocado ao
tribunal ou queria que seu filho fosse aceito em uma escola concorrida, você
sabia as regras implícitas. Sabia com quem falar ou a mão de quem molhar, o que
se podia e não se podia fazer.
Depois do colapso do poder
soviético, um dos mais frustrantes aspectos do cotidiano para as pessoas comuns
era que esse espaço de regras não-ditas tornou-se seriamente esfumaçado.
As pessoas simplesmente não sabiam como reagir diante de regulações legais
explícitas, o que podia ser ignorado, onde o suborno funcionava. (Uma das
funções do crime organizado era justamente a de fornecer uma espécie de
legalidade ersatz,
substituta. Se você possuísse um pequeno negócio e um cliente o devia dinheiro,
você ia ao seu protetor da máfia para lidar com o problema, já que o
sistema legal do Estado era ineficiente.)
A estabilização da sociedade
sob o regime Putin se deve em larga medida à transparência que
se estabeleceu dessas regras não-ditas. Agora as pessoas compreendem
novamente, de modo geral, o complexo emaranhado de interações sociais.
Não chegamos ainda a esse
estágio no plano da política internacional. Na década de 1990, um pacto
silencioso regulava a relação entre a Rússia e as grandes potências ocidentais.
Os Estados ocidentais tratavam a Rússia como uma grande potência na condição de
que a Rússia não agisse como uma. Mas e se o sujeito para quem a
“oferta-feita-para-ser-recusada” realmente aceitar ela? E se a Rússia realmente
começar a agir como uma grande potência? Uma situação como essa é propriamente
catastrófica, ameaçando todo o tecido de relações existente – como ocorreu
cinco anos atrás na Geórgia. Cansada de apenas ser tratada como uma
superpotência, a Rússia de fato agiu como uma.
Como chegamos a isso? O “século
americano” acabou, e entramos num período em que múltiplos polos do capitalismo
global vêm se formando. Nos EUA, na Europa, na China e talvez na América Latina
também, sistemas capitalistas desenvolveram com colorações específicos: os
EUA representam o capitalismo neoliberal, a Europa o que resta do estado de bem
estar social (Welfare State), a China o
capitalismo autoritário e a América Latina o capitalismo populista.
Com o fracasso da tentativa estadunidense de se impor como a única
superpotência mundial – a policiadora universal –, há agora a necessidade de
estabelecer as regras de interação entre esses polos locais no que diz respeito
aos seus interesses conflitantes.
É por isso que nossos tempos
são potencialmente mais perigosos do que podem parecer.
Durante a Guerra Fria, as regras de comportamento internacional eram claras, garantidas pela loucura da Destruição Mútua Assegurada (MAD) das superpotências. Quando a União Soviética violou essas regras não-ditas ao invadir o Afeganistão, ela pagou caro por essa infração. A guerra do Afeganistão foi o começo de seu fim. Hoje, as novas e velhas superpotências estão se testando, tentando impor sua própria versão de regras globais, experimentando com elas através de proxies (guerras por procuração) – que são, é claro, outras pequenas nações e estados.
Durante a Guerra Fria, as regras de comportamento internacional eram claras, garantidas pela loucura da Destruição Mútua Assegurada (MAD) das superpotências. Quando a União Soviética violou essas regras não-ditas ao invadir o Afeganistão, ela pagou caro por essa infração. A guerra do Afeganistão foi o começo de seu fim. Hoje, as novas e velhas superpotências estão se testando, tentando impor sua própria versão de regras globais, experimentando com elas através de proxies (guerras por procuração) – que são, é claro, outras pequenas nações e estados.
Karl Popper certa vez elogiou o
teste científico das hipóteses, dizendo que, dessa forma, permitimos que nossas
hipóteses morram ao invés de nós. Nos testes de hoje, as pequenas nações se
ferem no lugar das maiores – primeiro a Geórgia, agora a Ucrânia. Embora
os argumentos oficiais sejam altamente morais, girando em torno de direitos
humanos e liberdades, a natureza do jogo é clara. Os eventos na Ucrânia parecem
algo como “a crise na Geórgia, parte II” – a próxima etapa de uma luta
geopolítica por controle em um mundo multipolar, não regulado.
Chegou definitivamente a hora
de ensinar alguns modos às superpotências, velhas e novas. Mas quem vai fazer
isso? Obviamente, apenas uma entidade transnacional poderá dar conta de uma
tarefa como essa. Mais de duzentos anos atrás, Immanuel Kant viu a
necessidade de uma ordem legal transnacional fundada na emergência da
sociedade global. Em seu projeto para paz perpétua [Zum ewigen
Frieden. Ein philosophischer Entwurf, 1795], ele escreveu:
“Avançou-se tanto no
estabelecimento de uma comunidade (mais ou menos estreita) entre os povos
terrestres que, como resultado, a violação do direito em um ponto da terra
repercute em todos os demais, a ideia de um Direito Cosmopolita não é uma
representação fantástica nem extravagante.”
Isso, no entanto, nos traz ao
que é talvez seja a “contradição principal” da nova ordem mundial (se pudermos
usar esse velho termo maoista): a impossibilidade de criar uma ordem política
global que corresponda à economia capitalista global. E se, por razões
estruturais, e não apenas devido a limitações empíricas, não puder haver
uma democracia ou um governo representativo mundial? E se a economia global de
mercado não puder ser diretamente organizada como uma democracia liberal global
com eleições mundiais?
Hoje, em nossa era de
globalização, estamos pagando o preço por essa “contradição principal”. Na
política, fixações da era passada, e identidades particulares, étnicas,
religiosas e culturais retornaram com força total. Nosso predicamento hoje é
definido por essa tensão: a livre circulação global de mercadorias é
acompanhada por crescentes separações na esfera social. Desde a Queda do Muro
de Berlim e a ascensão do mercado global, novos muros começaram a emergir por
toda a parte, separando povos e suas culturas. Talvez a própria sobrevivência
da humanidade dependa da resolução dessa tensão.
___________________
Texto
de: Slavoj Žižek
Publicado em
inglês no The Guardian. A tradução é de
Artur Renzo, para o Blog da Boitempo. Acesse a
postagem, clique aqui.
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