MARX E O ESTADO
Muitos socialistas defendem a edificação de um Estado forte. Apresenta-se que a concepção de Karl Marx, com base no livro A Crítica ao Programa de Gotha, exige que o socialismo a ser realizado tenha no período de transição a construção de um Estado a distância, pois ele deverá ser paulatinamente extinto.
Muitos socialistas defendem a edificação de um Estado forte. Apresenta-se que a concepção de Karl Marx, com base no livro A Crítica ao Programa de Gotha, exige que o socialismo a ser realizado tenha no período de transição a construção de um Estado a distância, pois ele deverá ser paulatinamente extinto.
A concepção política de Karl Marx foi construída na base do disciplinado
estudo a luz de vela e nos movimentos dos trabalhadores, com certo destaque
para a chamada revolução alemã de 1848, quando se acreditou que os slogans “Liberdade,
Igualdade e Fraternidade” poderiam ser transformados em uma realidade política
e econômica para a maioria das pessoas.
Mas, depois dos dias de glória de 1848, houve uma reação conservadora
considerável. E na década de 1870, Marx estava no exílio político na
Inglaterra. O movimento operário socialista alemão foi dividido entre seus
seguidores e aqueles que olhavam para Ferdinand Lassalle, um ex-companheiro de
Marx.
Lassalle tinha abandonado a perspectiva da revolução dos trabalhadores.
Em vez disso, ele pediu uma “solução da questão social” através de um “Estado
livre” em que os trabalhadores teriam voto, igualdade de direitos e limitação
da jornada de trabalho a um “dia normal”. Lassalle pedia “ajuda estatal” para o
estabelecimento de “cooperativas de produtores em tais dimensões que a
organização socialista do trabalho total iria surgir a partir dessas
cooperativas.” Ou seja, com triste ironia se pode dizer que parecia que
Lassalle supostamente tinha assinado um pacto secreto com Bismarck, na base de
que o movimento dos trabalhadores e os proprietários tinham “interesse comum”.
De qualquer modo, no momento em que Lassalle foi morto em um duelo em
1869, a sua teoria tinha criado raízes entre muitos trabalhadores alemães
radicais. Em 1875, os seus slogans foram propostos como base para uma
plataforma de unidade da conferência alemão do Partido dos Trabalhadores, na
cidade alemã de Gotha.
Assim, na Crítica ao Programa de Gotha, de Karl Marx, é feita
crítica para exigir “nada além da velha ladainha democrática familiar: o
sufrágio universal, legislação direta, a justiça das pessoas, uma milícia
popular etc”.
Tais slogans foram progressivamente importantes na luta pela democracia
burguesa contra os estados feudais absolutistas. Mas Marx considerou estes
slogans vagos, um passo para trás para o movimento dos trabalhadores, que agora
teve que lutar contra o Estado burguês.
Aliás, Lenin, relendo A Crítica ao Programa de Gotha, enquanto
trabalhava o seu O Estado e a Revolução, observou que: “Com estas
palavras, Marx, por assim dizer, previu toda a banalidade do kautskismo
[socialismo reformista]: discursos doces sobre todos os tipos de coisas finas,
tornando-se o embelezamento da realidade” (1).
Mas foi o conceito de Lassalle do “Estado livre” que mais problema
trouxe para os socialistas após Marx, uma vez que por trás disso estava a
questão da reforma ou revolução.
De qualquer modo, Marx escreveu que, para Lassalle, o Estado não era um
instrumento pelo qual uma classe domina outra, mas sim era uma entidade
independente que possui sua própria base moral e livre. Marx continuou:
“Surge então a questão: quê transformação o Estado sofre na sociedade
comunista? Em outras palavras, que funções sociais continuará a existir
que são análogas as funções do Estado? Esta questão só pode ser respondida
cientificamente, e não pode se obtida (...) através de uma combinação de mil vezes
da palavra povo com a palavra Estado. Entre a sociedade capitalista e a
comunista reside aí o período da transformação revolucionária de uma na
outra. Correspondendo também a um período político de transição em que o
Estado não pode ser senão a ditadura revolucionária do proletariado” (2).
É bom lembrar que a expressão “ditadura do proletariado” é, para Marx,
um slogan democrático, porque significa substituir a ditadura de uma pequena
classe dominante pelas regras da grande maioria.
Todavia, a transição para uma sociedade comunista não é
automática. Como Marx explicou: “Esta igualdade de direito pressupõe a
desigualdade, a desigualdade de fato, a desigualdade entre as pessoas - porque
um é forte, outro é fraco e assim por diante (indivíduos não seriam indivíduos
se não fossem desiguais), um vai receber mais do que o outro. Mas estes
defeitos são inevitáveis na primeira fase da sociedade
comunista, pois é quando
ele acaba de sair, depois de dores de parto prolongados, da sociedade
capitalista” (2).
Diga-se que Marx frequentemente se recusava a especular sobre a vida
estatal após a revolução. Mas a visão do Programa de Gotha, de uma utopia
instantânea, deve ter lhe provocado o suficiente para escrever que uma
sociedade verdadeiramente sem classe só pode desenvolver-se na “fase superior
da sociedade comunista”, após o trabalho de parto. E só então “podem os
horizontes estreitos do direito burguês serem totalmente deixados para trás e
para a sociedade inscrever em suas bandeiras: De cada um segundo sua capacidade,
a cada um segundo a sua necessidade” (2).
Neste ponto, escreveu Marx, o Estado que havia definhou. Mas esse
definhamento não significa abolição da hierarquia após a revolução. É assim que
Lenin elabora em O Estado e a Revolução que: “Quanto mais democrático for
o Estado, que consiste nos operários armados, já não há um Estado no sentido
próprio da palavra, mais rapidamente o Estado começa a definhar completamente”
(1).
Este ponto foi ridicularizado por Stalin e seus seguidores, tanto que
eles estabeleceram um Estado sob o regime capitalista burocrático na
Rússia. E verifica-se que Estados socialistas, como Cuba, China, vários do
Leste Europeu nada murcharam. Ao contrário, eles têm se empenhado no
fortalecimento do Estado, muitas vezes contra os interesses dos trabalhadores.
Aqueles socialistas que consideram as idéias do definhamento do Estado
como irrelevantes, devem dar uma olhada na Crítica ao Programa de
Gotha e observar a forte dependência de Lênin sobre ele no seu livro O
Estado e a Revolução.
Acima de tudo, a crítica de Marx é uma chamada para a classe
trabalhadora destruir o Estado, ao invés de uma “estadolatria”. Como Marx
lembrou a um camarada que também estava preocupado com a conferência Gotha:
“Cada passo de um movimento real é mais importante do que uma dúzia de
programas.” (2)
Postagem baseada nas obras: (1) LENIN, V. O Estado e a Revolução: a doutrina marxista do Estado e a tarefa do proletariado na revolução. São Paulo: Global Editora. Trad. Jovert Monteiro. Coleção Base n. 51. (2) MARX, K. A Crítica ao Programa de Gotha. Arquivo Marxista na Internet (MIA), clique aqui e acesse. Texto: Colunista colaborador, Helio Rodrigues, Sociedade, Poder e Direito na contramão.


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