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''O SOCIALISMO ARROGANTE'': A crítica sobre o marxismo ocidental








Enquanto isso, na maioria das cidades, campos e empresas brasileiras não existe sequer uma frente única com base no movimento sindical e classista, e nem mesmo as atuais centrais sindicais e populares, que são governistas ou semi, perderam significativo poder institucional-clientelista ou mesmo foram destituídas das direções mais importantes. Enfim: logicamente que não estamos num processo de revolução social (tomada do poder nas fábricas, terras e etc. onde a força de trabalho começa a não ser mais trocada enquanto mercadoria), e nem mesmo num período pré-revolucionário (para isso é requisito existir, no mínimo, as três ferramentas da guerra de classes que são partido, exército e frente, ou equivalentes). E até mesmo, menos ainda num processo de restauração do regime ditatorialista/neofascista (fim da democracia burguesa constituída em 1988, ou mesmo, golpe de Estado em marcha contra o governo Dilma Rousseff), como alguns comentam.

SINALIZANDO MAIS PARA O AMARELO:
O INFELIZ PONTO DE VISTA ROMÂNTICO DA CLASSE BURGUESA EM REVISTA.

“O ponto de vista burguês nunca avançou além desta antítese entre ele mesmo e o ponto de vista romântico, e assim esse último acompanha-lo-á, como sua antítese legítima, até seu final feliz.” - Karl Marx, nos rascunhos.

A revista é um amplo, complexo e aprofundado debate contendo quase 300 páginas de escrituras, todas dentro dos cânones da introduzida aqui como sendo parte da teoria marxista ocidental, em especial, de uma linha da mesma que intitula-se enquanto a mais nova crítica radical da teoria do valor-trabalho, ou seja, são os chamados kurzistas e seus continuadores, herdeiros, órfãos, subderivados, resenhadores, monges copistas, troladores, descriptografadores, etc.

Historicamente, este marxismo ocidental surgiu a partir de um texto subtitulado como “Anticrítica”, escrito por Karl Korsch, então quadro do Partido Comunista da Alemanha, no qual propunha uma linha divisória entre os marxismos de Segunda e Terceira Internacional, e depois teorizou sobre as três fases, onde assim apenas a terceira seria revolucionária, composta originalmente por conselhismo e leninismo, sendo este último posteriormente retirado. Assim, após divergência, expulsão, guerra, etc., o militante acaba se distanciando da política e voltando-se para a fundação da Escola de Francoforte do Meno (juntamente com Adorno, Horkheimer, Benjamim entre outros intelectuais), até exilarem-se nos EUA, onde acabou trabalhando como professor universitário. Nisso, Korsch percorreu uma trajetória bastante comum da primeira geração franquefurtiniana, e que serviu de exemplo às próximas gerações, em geral também desligadas da prática política comunista. E foi assim que desenvolveu-se este marxismo ocidental, o qual até mesmo Perry Anderson foi obrigado a admitir sua caracterização de ser uma: “teoria sem prática”, onde: “seus três pais fundadores - Lukács, Korsch e Gramsci, cada qual ativo líder e organizador do movimento comunista em seus países, após o final da Primeira Guerra Mundial. Mas quando esses pioneiros terminaram no exílio ou na prisão, a teoria e a prática fatalmente, sob a pressão da época, se separaram. Os lugares do marxismo enquanto discurso se deslocaram gradualmente dos sindicatos e dos partidos políticos para institutos de pesquisa e departamentos universitários. Inaugurada com o surgimento da Escola de Frankfurt no final dos anos 20 e início dos anos 30, a mudança foi praticamente absoluta por volta do período da Guerra Fria (…) Essa mudança de terreno institucional refletiu-se numa alteração do foco intelectual. Enquanto Marx em seus estudos mudou sucessivamente da filosofia para a política e desta para a economia, o marxismo ocidental inverteu sua rota. Análises econômicas importantes do capitalismo, dentro de um arcabouço marxista, sumiram aos poucos em larga escala depois da Grande Depressão; o esquadrinhamento político do Estado burguês decresceu desde o silenciamento de Gramsci; a discussão estratégica das vias para um socialismo factível desapareceu quase que inteiramente. O que ocupou o lugar, cada vez mais, foi uma revivescência do discurso filosófico adequado, ele próprio centrado em questões de método - isto é, de caráter mais epistemológico do que substantivo.”. E foi neste resumo da ópera, para Domenico Losurdo, que desenvolveu-se esta teoria caracterizada por um certo eurocentrismo, que tenta remover a questão colonial e também de classe social, ao propor uma particular leitura completamente equivocada, tanto do marxismo (oriental), quanto da realidade concreta (mundial), onde assim: “Por muito tempo o "marxismo ocidental" celebrou a sua superioridade em relação ao marxismo dos países que se remetiam ao socialismo e que estavam todos situados no Oriente. Em decorrência dessa atitude arrogante, o marxismo ocidental nunca se empenhou seriamente em repensar a teoria de Marx à luz de um balanço histórico concreto: qual era o papel do Estado e da nação nesses países e no "campo socialista"? Como promover a democracia e os direitos humanos e como estimular o desenvolvimento das forças produtivas e o bem-estar das massas numa situação caracterizada pelo bloqueio capitalista? Ao invés de pôr-se essas questões difíceis, o marxismo ocidental preferiu abandonar-se à cômoda atitude autoconsolatória de quem cultiva em particular as suas utopias e rejeita, como uma contaminação, o contato com a realidade e a reflexão sobre a realidade. Disso derivou uma progressiva capitulação à ideologia dominante.”


Assim, esta capitular publicação teórica é um pesado calhamaço em formato digital, muito bem editado e com passagens até mesmo questionadoras, mas que está longe de ser uma leitura simples, objetiva e mais coloquial possível, destinada para o público militante da classe trabalhadora ou mesmo para o estudante secundarista, enfim, para qualquer não-iniciado em tal delimitada temática: principalmente na (des)conhecida  “parte econômica” de Marx, nos conceitos básicos da Escola de Francoforte, e sobretudo nas publicações dos arquirrivais grupos alemães Crise e Saída. Por isso, dificilmente, mostrando esta intelectualizada revista, tanto para um colega de trabalho - que opera motores-bomba -, quanto para uma sobrinha - no final do ensino médio -, haveria um possível maior interesse por tal conteúdo de leitura. Isto pois, tais artigos em questão, demonstram tanta proficiência em língua estrangeira, mas pouco falam na língua dos brasileiros explorados e pobres: pois não abordam objetivamente sequer os problemas gerais de um programa mínimo político-partidário (como salário, cesta básica, emprego, moradia, educação, transporte, etc.); e muito menos politizam sobre um programa máximo (como finalidade revolucionária, modo de produção, formação social e econômica, imperialismo, estratégia, etc). Ou seja, é quase nada da parte concreta do materialismo histórico e quase tudo de selecionada parte lógica, ou melhor, de uma crítica das categorias teóricas da mesma, porém, muitas vezes sem nenhuma relação política com a realidade social e latino-americana, mas somente com o próprio e repetitivo círculo ocidental, kurzista e hollowayanista, que aqui formam uma dobradinha teórica que não consegue superar seus próprios limites, visões burguesas e erros colossais. Neste sentido: O máximo que o materialismo contemplativo consegue, isto é, o materialismo que não compreende o mundo sensível como atividade prática, é a visão dos indivíduos isolados na "sociedade civil.”, conforme a famosa 9ª tese sobre Feuerbach.

Por isso que esta dobradinha, que mais se parece com receita de buchada fervida no caldo cultural franquefurtiniano, tem como ingredientes duas partes contemplativas: a primeira parte desta contemplação de indivíduos na sociedade de classes, tem a sua ascensão ao céu com a controversa tese kurzista de: “não como "história de lutas de classes", mas sim como "história de relações de fetiche", onde a contradição fundamental entre capital e trabalho seria plenamente fetichista e dominantemente sem sujeito de qualquer classe social, e disso conclui que: o “socialismo pós-burguês (pós-moderno, pós-fordista, pós-industrial, pós-marxista etc.) não pode mais basear-se no "trabalho"; e a segunda parte aterriza com a excrescente tese hollowayanista, que compartilhando praticamente da mesma análise do falecido guia genial de Nurembergue (aquele mesmo que durante o racha de 2004 entre os dois grupos, foi acusado de “mestre do maquiavelismo associativo alemão”, onde: “Dois em cada três membros da Direção, há muito considerados honorários e à margem do debate teórico, deixaram-se instrumentalizar como marionetes da minoria da redação, não se importando com o círculo de apoio activo.”), e segundo o qual em meio a toda esta teorização supostamente radical, vai ganhando forma uma outra proposta de mudar o mundo, mas ressalvando que: “se o fetichismo está completo, então não existe nenhuma possibilidade de auto emancipação dos negados”, entretanto no meio disso, ainda haveria uma fissura hollowayanista dentro do fetiche kurzista, pois: “o que constitui valor e valor de uso é o trabalho humano”, ou seja, lá no fim do túnel ainda restaria uma possibilidade de revolta, daquilo que é atribuído como sendo o fazer produtivo contrário ao trabalho abstrato.

Nesta sequência, ao tentar solucionar os problemas levantados pelo impasse kurzista, é que surge esta nova resposta hollowayanista, mas que como observa Rolando Astarita, esta solução já recai desde o começo num dos mais elementares erros teóricos: o de considerar que a lógica do capital depende completamente do trabalho e assim desconsiderar o materialismo histórico onde: “a natureza é fonte do valor de uso... nem mais nem menos que o trabalho” (Marx). Logo, este hollowayanismo vai se aprofundando cada vez mais numa peculiar leitura subjetivista da crítica da economia política, partindo de sempre um ponto de vista romântico para também relegar a objetividade de fato, com suas formas de reprodução, leis tendenciais e contradições materiais, propondo por exemplo, simplesmente que os trabalhadores apaguem o relógio despertador e não saiam mais para trabalhar, num suposto fazer que em nada resulta, pois todos os dias milhares e milhões de trabalhadores fazem isso de forma impotente, individual e espontaneamente.

Para Atilio Borón, assim esta proposta hollowayanista, não passa de uma reciclagem do velho liberalismo radical, representando a: “manifestação de triunfo da sociedade civil sobre o estado”, sendo que: “Se as hierarquias e as dominações, com todas suas sequelas degradantes e opressivas, acompanharam a espécie humana desde as raízes de sua existência, nada autoriza a pensar que a dissolução das relações de poder possa pleitear-se, programaticamente, como um objetivo imediato de uma força revolucionária, especialmente se esta renuncia a conquista do poder político, caracterizando com isso tal espécie de socialismo, que não é mais nem sequer utópico ou mesmo burguês, mas sim quixotesco, pois recorre à uma: “metafísica do poder que, curiosamente, tem mais um ponto de contato com as visões características da direita”, pois concluir que o poder não pode ser da classe operária, e tampouco ser entendido na casa da complexidade das estruturas de um Antonio Gramsci, entre outros que amplificaram a teoria estatal. Assim, até mesmo Enrique Dussel critica o hollowayanismo, porque: “distingue entre “poder-fazer” e “poder-sobre”. Porém me parece que falta um sentido mais trabalhado de suas determinações próprias”, onde  isto acaba desenvolvendo uma teoria que apenas: “impede compreender a questão do Estado, macro instituição política a que - desde Habermas a Nozick (o anarquismo de direita), incluindo Negri e Holloway - querem convencermos que é bom que desapareça definitivamente (…) contra a bipolaridade política do dominador-dominado no campo político em mãos de uma única instância de exercício do poder, tal como um certo marxismo estandarte o afirmava, tentou mostrar que o poder estava disseminado não de maneira bipolar, e sim multipolar, em micro instituições que disciplinam o corpo em diferentes níveis de exercício do poder: significa uma crítica a macro instituição estatal. Uma antiga tradição originada em Stirner ou Bakunin, continuada por Sorel ou Pelloutier, e que se interna em nossa época com o mesmo Foucalt com Negri e Holloway, manifestando a necessidade da “dissolução do Estado””, criando assim com isto uma proposta que: “abre a brecha de todo um marxismo libertário (que não é de libertação), que remove o chão abaixo dos seus pés e torna impossibilitada toda ação política-estratégica factível. Assim como Marx procede na economia, da mesma maneira devemos proceder na política em nível de fatibilidade macro-institucional. A “dissolução do Estado” deve ser definida como um postulado político. E tentar empiricamente leva a “falácia anti-institucional” e a impossibilidade de uma política crítico-transformadora. Dizer que temos que transformar o mundo sem exercer o poder das instituições, incluindo o Estado (que há de transformar radicalmente, mas não eliminar) é a “falácia” em que cai Negri e Holloway”.

Contudo, se por um lado, a disputa jurídica pelos direitos autorais e indenizatórias do grupo e revista alemã Crise, expõs uma estabelecida ordenação política e trabalhista institucionalizada da teoria crítica radical, composta desde por diretores até apoiadores, que exercem pleno poder de pautar, relatar, excluir, editar, cortar, arrecadar, cobrar, representar, formalizar, etc., conforme citações onde: "Os que desprezam o direito burguês" e ideólogos do copyleft cumpriram a sua proclamação e intentaram uma acção no tribunal de Koblenz contra a editora Horlemann, que edita a Exit! Pedem por junto € 7.428,06 de "honorários de editor", reivindicando um poder formal ilegalmente usurpado na qualidade de "únicos representantes" da história da Krisis, e ainda por cima relativamente a textos do período de 1997 a 2004 de autoras e autores por eles afastados a golpe”. E isto ao mesmo tempo em que o PHD em ciência política, é um pleno e assíduo servidor na ativa estatal do aparelho educacional do México burguês e latifundiário, em Puebla (cidade que coincidentemente ou não, sediou a histórica conferência da Teologia da Libertação, e de onde é fortemente apoiado o Subcomadante Marcos, que professa sermões no qual: “A religião é o ópio dos povos? Não sei. O que sei é que a explicação mais brilhante que escutei sobre a destruição e despovoamento que a globalização neoliberal opera em um território foi dada, não por um teórico marxista-leninista-ateísta-e-alguns-istas-mais, mas… um padre cristão, católico, apostólico e romano.”). Logo, estes são os dois fundadores teóricos que manifestam-se, cada uma com sua singularidade, num campo teórico, aqui apresentado por kurzismo-hollowayanismo. Onde assim, este inovador conjunto teórico, que se reivindica radical, crítico, novo e enfático do valor-trabalho, recebe por meio deste presente comentário-resposta, mais uma contribuição às questões pautadas, desenvolvendo assim nestes parágrafos, nem o começo e muito menos o fim deste debate que é estratégico.

Debate este que, tanto para a esquerda brasileira como um todo, quanto para fins de conhecimento (válido desde exatas até relações internacionais, ciências políticas, econômicas, sociais, etc.), que necessitam se pautar pelo princípio do realismo, sobretudo o político. Princípio este que é o primado das condições objetivas sobre as subjetivas: do mundo como ele realmente é, e não do mundo como ele deveria ser. Princípio aliás, que é negado abertamente pela ideia de Holloway: “O conceito realista do conhecimento é simplesmente uma ficção, um fingimento de que as relações sociais não existem em forma de sua negação”, porque epistemologicamente: “O conhecimento científico, pelo tanto, não pode ser um conhecimento direto da realidade, como supõe a noção engelsiana do “marxismo científico”. Não pode ser um conhecimento direto da realidade simplesmente porque a realidade (…) está refratada através de sua negação”, e assim cria-se mais um caricato marxismo romântico, semelhante à Edward Thompson,  teologistas da libertação entre outros.

Enquanto que, mais complexa, é a questão para Kurz, segundo o qual há um certo ponto de vista supraclassista da atual realidade política existente e uma espécie de abstração real aprisionada ao beco sem saída: “Nas condições da terceira revolução industrial, que tornou esta imediatez do mercado mundial uma realidade, as forças produtivas e os meios de produção da maior parte do mundo são dispensadas por falta de rentabilidade em termos de economia empresarial, mas sem que as pessoas sejam dispensadas”, onde: “É a crítica radical do "princípio de realidade" do capitalismo e da sua redução economicista do ser humano, e também, a partir daí, a crítica radical de toda a "Realpolitik". Nas condições da crise mundial do capitalismo, trata-se, não de uma ideia estranha ao mundo, mas, pelo contrário, de um "contra-realismo" da legítima defesa social, que a experiência prática da avassaladora repressão exercida pelo princípio autotélico económico irracional da "valorização do valor" não consegue manifestar. Tenhamos isto em conta: nem os mais belos princípios fundamentais da realidade dominante são os nossos princípios; nós temos é de nos ver livres desta realidade em lugar de nos tornarmos "realistas" do ponto de vista dos direitos humanos.” Assim portanto, tanto ao negar o realismo, quanto ao criticar de forma despropositada o mesmo, ambos vão de encontro com o materialismo histórico, segundo o qual, para Vladimir Lênin: “o termo realismo é empregado aqui como antônimo do termo idealismo. Mas seguindo, neste ponto, o exemplo de Engels, não uso nesse sentido senão a palavra materialismo. Considero essa terminologia como a única exata, tanto mais que o termo realismo é adotado pelos positivistas, bem como por outros confusionistas que oscilam entre o materialismo e o idealismo.” Além disso, neste irrealismo genérico, é colocado o conhecimento teórico-científico (ou mesmo, do outro lado da moeda, a crítica negativa do mesmo), como estando acima da realidade social e até mesmo das próprias contradições da luta de classes, entretanto, conforme responde Louis Althusser a este debatido problema, o que há na relação entre teoria e prática é outro primado: “acredito na lucidez da inteligência e no primado dos movimentos populares sobre a inteligência. A esse preço, porque ela não é a instância suprema, a inteligência pode seguir os movimentos populares, inclusive e antes de tudo a fim de evitar que esses tornem a cair nas aberrações passadas e a fim de ajudá-los a encontrar formas de organização realmente democráticas e eficazes. Se podemos conceber, apesar de tudo, alguma esperança em ajudar a desviar o curso da história, aí está ela, e só aí. Em todo caso, não nos sonhos escatológicos de uma ideologia religiosa com a qual estamos todos morrendo. Mas, aqui, eis-nos em plena política". Tal é o enfoque realista, ou melhor, materialista histórico de infraestrutura/superestrutura nas formações sociais e econômicas, compostas fundamentalmente por classes sociais numa contradição que movimenta toda a história. E nesse universo, inserem-se diferentes pontos de vista e estratégicos sobre a relação prática na sociedade de classes.

Pois assim, tal teoria kurzista e hollowayanista, que guardadas as suas divergências internas, está sendo publicada e referenciado nessa atual conjuntura brasileira, onde desde junho de 2013, caracteriza-se pelo retorno após praticamente 20 anos, das grandes manifestações de rua pelo transporte público, com ondas grevistas de diversas categorias como garis, correios, professores e transportes, grandes movimentos de jovens, estudantes e assalariados urbanos, ocupações no campo, na cidade e nos territórios originários indígenas e quilombolas, assim com violenta repressão policial , principalmente nos bairros pobres e nos grandes atos dos movimentos sociais. Onde neste cenário político brasileiro, marcado pela inexistência de um partido comunista, e tendo de um lado uma maioria de governistas, e de outro, diferentes níveis de eleitoralistas, pacifistas e reformistas em geral, tendo ainda à esquerda destas duas grandes frentes, que em essência são parlamentares e/ou oficiais, uma importante minoria independente de militantes mais ou menos organizados, mas que uma parte luta pela nova revolução democrática burguesa nacional de libertação, e outra pela permanente revolução socialista de forma limitada por seu próprio estilo inoperante, jornalístico e ideológico, além dos crescentes antiautoritários em luta, uns pelo poder de todo povo contra qualquer estatalidade, e outros pela intransitória gestão direta da produção de mercadorias. Enquanto isso, na maioria das cidades, campos e empresas brasileiras não existe sequer uma frente única com base no movimento sindical e classista, e nem mesmo as atuais centrais sindicais e populares, que são governistas ou semi, perderam significativo poder institucional-clientelista ou mesmo foram destituídas das direções mais importantes. Enfim: logicamente que não estamos num processo de revolução social (tomada do poder nas fábricas, terras e etc. onde a força de trabalho começa a não ser mais trocada enquanto mercadoria), e nem mesmo num período pré-revolucionário (para isso é requisito existir, no mínimo, as três ferramentas da guerra de classes que são partido, exército e frente, ou equivalentes). E até mesmo, menos ainda num processo de restauração do regime ditatorialista/neofascista (fim da democracia burguesa constituída em 1988, ou mesmo, golpe de Estado em marcha contra o governo Dilma Rousseff), como alguns comentam.

E isso, sem aprofundar muito em outro vasto campo que é o da direita propriamente dita e daqueles que ocupam a direção do Estado burguês e do mercado empresarial, com suas formas de reprodução, financiamento, comunicação, justiça, violência, etc. que assim formam um espaço político que amplamente vai desde o centro, que compõe a base aliada do atual governo democrático-burguês, sempre votando em projetos governistas por trocas de cargos, verbas e ministérios, até grupos extremistas cristãos, midiáticos, jurídicos, repressivos, nazifaxos, entre outros que fazem campanhas contra as atuais políticas sociais compensatórias, os direitos conquistados e todas as liberalidades deste regime civil. Pois foi nesta última década, que as atuais políticas desenvolveram o capitalismo brasileiro a um outro patamar no mundo, porém aumentando a diferença relativa entre explorados e exploradores, entre os mais pobres e os mais ricos, já que uma maioria, mesmo que parcialmente recebendo transferência de renda e sendo controlada socialmente ao mesmo tempo por estas mesmas políticas públicas estatais, continua na pobreza, enquanto que a minoria, como banqueiros, agronegociantes, empreiteiros, rentistas, grandes empresários nacionais e estrangeiros, batem recordes históricos de lucratividade. Assim, nestes 10 anos recentes, onde gastos com programas sociais são menores que gastos com dívida pública e até mesmo com pensões militares, a maioria das categorias de trabalhadores em dissídio não obtiveram aumentos salariais que acompanhassem o crescimento dos lucros públicos ou privados, enquanto que por outro lado, aumentou o crédito e o financiamento para empresas, agronegócios, grandes eventos e obras, mas também cresceu o endividamento (com altas taxas de juros) dos trabalhadores brasileiros no campo, na periferia e na cidade, bem como a exploração da classe social que produz e circula as mercadorias desta sociedade, dos trabalhadores que fazem este Brasilzão.

E isso, com todas estas contradições ocorrendo numa conjuntura internacional marcada pelo predomínio de ciência, tecnologia e comunicação ao serviço do capital, de problemas ambientais, de guerras imperialistas, de mercados comuns, de altas em produção e venda sob nome de crise, de protestos massivos contra diferentes governos, desde regimes islâmicos até burgueses “socialistas do século 21”, entre outros fatos relevantes à serem melhor enfrentados... juntamente com o revisionismo generalizado no movimento comunista internacional (MCI), onde organizações internacionais ora pedem armas ao imperialismo (4ªI), ora votam pela eleição de Barack Obama (EIPCO), ora perpetuam-se na frente popular burguesa (CIPOML), ora apoiam o governo do Nepal (MRI), etc. Resultando numa imensa contradição do MCI atual, com sua história de três ciclos revolucionários: o primeiro (1848-1916), tendo como auge a comuna parisiense, com a tomada de poder pelos trabalhadores em 1871, o segundo (1917-1991), tendo como auge os grandes movimentos dos anos 60 como a revolução cultural chinesa, e o terceiro (1992-...), que é o período atual, onde praticamente tudo precisa ser reconstruído a partir da autocrítica e da acumulação das experiências dos ciclos passados até as lutas mais recentes: principalmente do segundo ou também chamado Ciclo de Outubro, no qual convivemos com as graves consequências de seus erros e acertos. E assim, devido ao balanço negativo e até mesmo desconhecimento, das importantes experiências da luta de classes, desde os ciclos passados até as recentes Batalha de Seattle, Fóruns Sociais Mundiais, Primaveras e Ocupas, que os novos movimentos sociais chamados de NMSs ou altermundistas, distanciam-se cada vez mais da centralidade operária, da oposição esquerda/direita, da necessidade de destacamento partidário e da estratégia para revolução socialista. Isto ocorre em parte, pela crescente influência da nova esquerda, desde 1968 até a atualidade com Bob Avakian, Marshall Berman, Slavoj Zizek, Frederic Jameson, David Harvey, Eric Hobsbawm entre outros, que são mais ou menos “estrelas” de um teoricismo que é politicamente oco. E deste modo, torna-se cada vez mais urgente a tarefa de contribuir para a reconstrução de uma política no MCI, com objetivo de demarcar os campos neste atual ciclo da luta de classes e de começar a aplicação de uma estratégia que tenha como finalidade operacionalizar o longo e difícil processo da revolução proletária mundial, como por exemplo, debatem abertamente os marxistas-leninistas espanhóis, nos círculos em torno da trajetória do PCER e do jornal O Bate-estacas, para assim prosseguir marchando em: “passo decisivo até a união dos trabalhadores de todos os países em uma República Socialista Soviética Mundial”, como historicamente declararam camponeses e operários na fundação da URSS em 1922.

Mas, recapitulando sobre conjuntura nacional, importantes formas de autodefesa da massa (como a tática de blocos negros nas grandes cidades e a tomada de terras pelos camponeses, entre outras ações combativas), estão sendo praticadas, formando a possibilidade de um cumulativo processo político de empoderamento, no qual em uma projeção do avanço desta luta de classes brasileira, rumo à organização da frente única nos locais de trabalho da classe operária, aliada ao conjunto de trabalhadores assalariados, camponeses, indígenas, quilombolas, estudantes, pequenos produtores, mulheres, GLBTs entre outros setores, pode vir-a-ser, a construção do duplo poder no Brasil (também denominado de soviete ou conselho). Dualidade esta que pode ser originária até mesmo das atuais reuniões em praças públicas e dos comitês dos blocos/frentes/greves/ocupações independentes, mas que para isso acontecer é imprescindível uma vanguarda política centralizada: que prepare a estratégia de longo prazo para a guerra revolucionária de classes, que construa todas as ferramentas necessárias, que determine objetivamente a resolução da contradição fundamental desta sociedade de origens coloniais portuguesa e escravista - como sendo entre as classes operária e burguesa, e não erroneamente entre servos da gleba campeira e senhores semifeudais, nem entre minoria de elite e maioria de todo o povo (isto é, o terceiro estado, que inclui até mesmo é claro, a classe burguesa ou frações da mesma), e muito menos ainda, entre capital produtivo aliado aos governos e aos trabalhadores contra improdutivo, entreguista e associado ao imperialismo.

E isso tudo, sem contar com a ilusão de que o importante mesmo seria promover a colaboração governista entre aliados do PT contra PSDB, ou também, entre as tendências internas petistas ou até mesmo dentro do palácio governamental, que estariam assim em plena disputa pela hegemonia. Por isso, é necessário que uma vanguarda iniciadora a partir destes apontamentos programáticos básicos, desenvolva uma proposta para o Brasil enquanto complexa formação social e econômica capitalista dependente do imperialismo, sobretudo dos EUA, caracterizando a revolução brasileira como socialista (e não mais uma nova etapa burguesa de poder popular). Enfim, tal questão é a contradição principal à ser enfrentada obrigatoriamente pelos militantes e simpatizantes que almejam reconstruir o movimento comunista brasileiro, sem sair pela tangente e reconhecendo os graves erros do passado, com aprofundada autocrítica, organização de células para trabalhos de base do Oiapoque ao Chuí, estando sempre centralizadas, na aplicação do método onde os quadros aprendem com o estilo de vida das massas trabalhadoras, para depois ensinar o programa político: processo este que sintetiza-se em consciência de classe/prática política. Isto numa política, onde todas as lutas reivindicativas do programa mínimo são importantes, mas as lutas pelo poder político são imprescindíveis: o programa máximo dos trabalhadores, do campo e da cidade, organizados politicamente e apetrechados, para acionar a frente única dirigida pela classe operária (em sindicatos, associações, ligas, grêmios, entidades, etc), fazem um movimento social gerador deste novo poder político (dentro e fora de fábricas, comércios, serviços, campos, agroindústrias, escolas, periferias, etc). Enfim, de uma nova forma de poder classista que se constrói mapeadamente em distintas zonas geopolíticas como, por exemplo, as de inserções, reivindicações, semi-liberações... até liberadas pelas forças revolucionárias, num processo de correlação direta entre as ferramentas revolucionárias (partido, frente...) e as estruturas capitalistas (aparelho repressivo, ideológico...). Isto é, de transformação e ruptura contra reprodução e conservação.

Neste cenário, a construção de tais ferramentas estratégicas e táticas, desde a vanguarda inicializadora de militância, formação e luta, passando pelos períodos de construção da frente única, da duplicidade de poder, da guerra revolucionária, das zonas liberadas versus do inimigo de classe e do novo poder proletário em toda a república conselhista, das operações de defensiva, embate e ofensiva, até os preparativos e a insurreição geral de massas, finalizando com a formação do novo Estado de ditadura do proletariado. Política esta que, em nada tem haver com a de sentar e fazer a crítica radical, de unilateralidade agrária ou foquista, de economia solidária em perspectiva liberacionista de sociedade e Estado, ou ainda de negação teoricista ocidental das históricas formas de empoderamento da classe explorada, conforme citado no quixotesco exemplo da orelha: “O trabalhador da indústria automobilística que vai ao seu jardim em busca de uma atividade que lhe proporcione sentido e prazer (…) os amigos em Porto Alegre que formam um coro, simplesmente porque gostam de cantar, todos eles podem não saber, mas John Holloway enxerga um sentido comum em suas ações: um movimento de recusa e de criação. Assim como a enfermeira em Seul que faz todo o possível para ajudar seus pacientes, o idoso que vive em um prédio feio de Beirute e cultiva plantas na janela como revolta contra a selva de concreto que o cerca, o grupo de amigos sem-teto em Roma que ocupa uma casa vazia e se recusa a pagar aluguel e a garota em Tóquio que não vai trabalhar hoje e sim ler um livro no parque.”

Pois, tais ações são cotidianas e até espontâneas, como operação tartaruga, batimento de cartão ponto em atraso, burlamento de procedimento padrão e muitos outros fatos frequentes, tanto que não é preciso vir de fora um doutor Holloway para teorizar e somente depois haver consciência para a classe operária, pois tais ações sem uma política para a conquista do poder classista, são aquilo que os militantes argentinos do PRT-Santucho caracterizam como sendo um verdadeiro programa charlatão de impotência política, pregado pelos ditos teóricos radicais da novíssima esquerda altermundista, como o faz Holloway, segundo o qual: “A abordagem nada tradicional do legado de Marx, já conhecida dos leitores de "Mudar o mundo sem tomar o poder", retorna intensificada neste volume, onde o autor centra fogo contra o trabalho abstrato... Mas esta crítica não é proposta do ponto de vista da abstração do trabalho”, isto é, não é logicamente do ponto de vista da classe operária e muito menos do comunismo, mas algo dissolvido num xarope com açucaradas colheres de subjetivismo, humanismo, altermundismo e kurzismo, onde a base seria o: “que está em seu centro: a atividade humana que a produz. Nós tecemos a teia que nos mantém prisioneiros. Interessa aqui a revolta do fazer contra o trabalho abstrato. A fissura onde o fazer autodeterminado transborda do trabalho. Se a abstração do fazer em trabalho é a maneira pela qual a atividade humana é organizada, se, afinal, nós mesmos a produzimos, então podemos rompê-la. Podemos parar de produzir o capitalismo e fazer algo diferente, sensato, belo e prazeroso em seu lugar. A revolução não é a destruição do capitalismo, mas a recusa em criá-lo”.

Isso, pressupondo como se qualquer atividade humana fosse um trabalho produtivo de valor e como se quem fizesse - no sentido de dirigir a produção e a circulação capitalista nesta sociedade/Estado - fosse nada mais do que a própria vontade de acordar, dormir ou trabalhar da classe operária, ou pior ainda, como se uma ampla frente policlassista por meio da passividade comportamental, num belo jardim florido ou num lindo coral cantarolante, tanto faz, tivessem algum poder para tal: “O argumento de Crack Capitalism é que esse movimento das fendas deve ser entendido como a rebeldia, como a revolta do fazer - ou trabalho concreto - contra o trabalho abstrato. Então, realmente, o que todas essas fendas estão dizendo, de formas diferentes, é que o movimento é contra o trabalho abstrato e alienado, um movimento por outro tipo de atividade aqui e agora, e não somente depois da revolução.” Entretanto, como somente quem faz o trabalho produtivo transformando matéria em mercadoria, continua sendo a classe operária, que gasta seu cérebro, força e músculo no capitalismo industrial (inclusive na atual etapa de reestruturação flexível), enquanto que na impotente proposta hollowayanista nega-se o ponto da mesma, fazendo campanha para que não tome o poder político, mas sim que abra fendas para inserir... flores!!!

Planteando isso, ao mesmo tempo em que renega, de uma forma ou de outra, a própria política para dirigir a revolução socialista, é algo que aproxima-se um pouco daquela proposta que foi debatida nos anos 80 e 90, do socialismo cooperativo de Paul Singer, onde supostas relações sociais de economia popular e solidária (num exemplo idealizado dos emergentes burgos dentro do feudalismo), se desenvolveriam internamente até superar o capitalismo, e inclusive derrotar sua poderosa estrutura estatal-militar. Porém estas relações cooperativas, assim como as tais fendas rebeldes, não são superadoras do capitalismo e nem mesmo quebram sua reprodução social, mas sim, constituem partes integrantes de sua totalidade, pois desde economia política até psicologia comportamental, são regidas pelas mesmas leis, que estes formuladores teóricos alegam tanto conhecer radicalmente quanto também criticar. E mais: isto se aproxima também da nova tentativa revisionista do PCB de Ivan Pinheiro e Mauro Iasi, em superar reforma/revolução com a proposta de poder popular das diversas classes não-monopolistas, numa etapa anterior à ditadura do proletariado e em transição pacífica, eleitoral e legalista (dentro do calendário democrático burguês do TSE), ou até mesmo, do praticamente esquecido, “modo petista de governar” onde administrações democráticas e populares das prefeituras e governos estaduais (anteriores à eleição do presidente Lula), estariam assim construindo uma hegemonia dos trabalhadores via orçamento participativo, sindicato cidadão, socialismo democrático, etc. Entretanto, modificar esta dura realidade capitalista não é sair por aí topando em buracos contra moinhos de vento (e muito menos praticando cooperação econômica, revisionismo e governismo), mas sim, organizando a classe no programa do partido comunista, que tenha como finalidade desde 1848, o seguinte manifesto: “O objetivo imediato dos comunistas é o mesmo que o de todos os demais partidos proletários: constituição dos proletários em classe, derrubada da supremacia burguesa, conquista do poder político pelo proletariado. (…) O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante e para aumentar, o mais rapidamente possível, o total das forças produtivas. Isto naturalmente só poderá realizar-se, em princípio, por uma violação despótica do direito de propriedade e das relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção.”

E assim, devido a inúmeras controvérsias e desentendimentos sobre o Estado, é importante também fazer uma introdução à análise desta instância, onde o Estado é um aparelho da exploração de classe, e portanto, enquanto existir luta de classes e classes sociais, vai continuar existindo Estado e relações sociais de poder. Mesmo no socialismo, que é um período transitório, no qual existe a contradição entre resíduos do velho capitalismo e novas relações em formação para o comunismo, que se materializam nas correlações entre classes e frações, enfim, numa luta mortal entre revisionismo e revolução, entre partidários da restauração do mercado capitalista e do avanço coletivo pela superação da forma mercadoria em todas esferas da vida, não apenas da força de trabalho, saúde, educação e etc. Sendo que a completa superação deste modo de produção, somente pode ocorrer em escala mundial, com a definitiva vitória da revolução proletária, a cultural para completar a integração no trabalho produtivo e braçal, e assim portanto, no final de um prolongado processo histórico. Pois antes disso, da vitória do comunismo em escala planetária, lutar pela liberação do poder de Estado, em plena ou residual existência da contradição classista, é um erro primário e romântico, pois a classe operária necessita utilizar-se do poder político para derrotar violentamente as demais, sobretudo as forças armadas do inimigo de classe. Com isso, propostas e práticas de supostos espaços de “não-poder” (Holloway) e “anti-economia” (Kurz), bem como em movimentos sociais não-estruturados ou em comunidades de utopias econômicas, não passam de atualizações do velho socialismo pequeno-burguês que Marx e Engels tanto criticaram:“é natural que os escritores que se batiam pelo proletariado contra a burguesia, aplicassem à sua crítica do regime burguês critérios pequeno-burgueses e camponeses e defendessem a causa operária do ponto de vista da pequena burguesia”. E mais: existe uma vasta crítica destas experiências, que tentam substituir o: “salto do reino da necessidade para o reino da liberdade”, por meio de novas teorias pós-modernistas e cripto-burguesas, que não passam de errôneas receitas de fazer omelete sem quebrar os ovos. Mas por outro lado, isto não impossibilita de forma alguma que, no processo da luta de classes para o poder operário, que desempregados, ocupantes e associados formem cooperativas e que as mesmas estejam inseridas na luta política e trabalhista, ou mesmo que jovens, alternativos, contraculturais, poliafetivos, ecologistas e etc. vivam em comunidades sustentáveis que apoiem efetivamente a luta da classe operária. E até mesmo que, um militante sindical, após ser demitido, perseguido, preso e colocado na lista negra pela federação patronal das indústrias, recorra à tais importantes formas de organização social e econômica.

Por isso, é relevante nesta questão, o problema da concepção de Estado. E assim, neste caminho alinhavado por Holloway, o Estado não é de acordo com a teoria marxista-leninista, uma superestrutura do modo de produção capitalista, mas um enrolado: “nó na rede de relações de poder”, no qual ocorre constituintemente um fato em especial, onde: “mais importante é que o Estado incorpora em si mesmo uma separação entre a sociedade e a sua própria organização, isto é, o Estado é a separação de um grupo de funcionários da população.”, e assim sendo, bastaria desatar este enrolado nó estatalitário que envolveria todo o novelo sócio-linear, que supostamente estaria amarrado com num nó cego. Todavia nesta concepção nodal, se mantêm conservada a clássica repartição da dualidade entre Estado e sociedade, que aliás, é o mega-fundamento mitológico da ideologia capitalista, que chama-se liberalismo, e que também influenciou francamente os mestres anti-estatistas Rudolf Rocker, Pierre Clastres, Noam Chomsky entre muitos outros.

Entretanto, Gramsci já demonstrou que este desquite não passa mesmo é de uma superficial concepção liberal-burguesa, que tanto desconsidera a dialética da totalidade, quanto opõe superficialmente a sociedade civil contra a sociedade política, ou também para alguns, de mercado contra Estado. Como se num reducionista contraste, a sociedade fosse uma esfera “libertária” e a estatalidade uma “autoritária”, contudo, neste processo ocorre uma síntese orgânica entre Estado integral ampliado/moderna sociedade capitalista, onde a superestrutura está enraizada dentro da infraestrutura: ou seja, o próprio Estado é uma relação social entre classes antagônicas e o espaço público é mercantilizado pelo privado, sendo que isso caracteriza: “todo o complexo de atividades práticas e teóricas com as quais a classe dirigente não só justifica e mantém não só seu domínio, mas consegue obter o consentimento ativo dos governados", onde este: “poder industrial de cada fábrica separa-se da fábrica e centraliza-se num truste, num monopólio, num banco, ou na burocracia de Estado”, no qual: “A estrutura e as superestruturas formam um ‘bloco histórico’, isto é, o conjunto complexo e contraditório das superestruturas é o reflexo do conjunto das relações sociais de produção”, e por fim: “na realidade a sociedade civil e o Estado são um só”. Esta é a base do Estado relacional, que busca superar o absoluto hegelianismo e parte da hegemonia leninista para desenvolver que: “relações de poder, como é o caso da divisão social do trabalho e da luta de classes, ultrapassam de muito o Estado”, conforme Nicos Poulantzas e os estrutural-reprodutivistas franceses, segundo os quais, as relações de produção estão acima das forças produtivas, ou seja, relações sociais do poder de classe tem primado sobre aparelhos sociais, políticos, econômicos, educacionais, tecnológicos, militares...

Com isso, partindo da dialética entre sociedade/estatalidade (com todos seus problemas, críticas e questões em aberto, extensamente debatidas no marxismo-leninismo até os dias de hoje), isto não significa de forma alguma defender uma proposta gradualista para a conquista do Estado, da democracia burguesa como tendo um valor universal, do cerco da cidade pelo campo, da transição pacífica, reformista e eleitoral para o socialismo, da conquista de uma nova hegemonia na sociedade civil excluindo-se relações de produção, ou mesmo de poder em geral, sem um violento processo revolucionário de ruptura contra o regime da economia política burguesa, que como acrescenta Anderson, tal moderno Estado ampliado assim mantêm-se em grande parte pela: “crença na igualdade democrática de todos os cidadãos no governo da nação - em outras palavras, incredulidade na existência de qualquer classe dominante. O consentimento dos explorados em uma formação social capitalista é, neste caso, um tipo qualitativamente novo que tem dado lugar sugestivamente a sua própria extensão etimológica: consenso ou acordo mútuo.”

Sendo assim, o Estado enquanto uma relação assimétrica entre pessoas, isto é, como uma contradição entre classes exploradas e exploradoras, não significa que seja uma via de mão única, mas sim uma certa reciprocidade destas estruturas sociais antagônicas. Pois concretamente, até mesmo o senhor de engenho sabia o limite em que podia bater com a chibata ou prender com a máscara de flanders, para que a massa escrava não colocasse fogo no canavial e nem atentasse contra os cristãos brancos, protegidos dentro da casa grande, durante o Estado escravagista colonial brasileiro. Isso significa teoricamente, conforme o esquema de Étienne Balibar, que: “As relações, que foram assim descobertas, implicam-se, todas, reciprocamente: especialmente as relações de propriedade e as relações de apropriação real ('forças produtivas'), na sua unidade complexa. Elas abarcam os 'momentos', antes separados (produção, circulação, distribuição, consumo), numa unidade necessária e completa. Do mesmo modo, elas abrangem tudo o que tinha aparecido no curso da análise do processo de produção imediato como os seus 'pressupostos', as suas 'condições' necessárias para que esse processo possa se concretizar na forma que foi descrita: por exemplo, na produção capitalista, a autonomia da instância econômica ou das formas jurídicas correspondendo às formas da troca mercantil, isto é, uma certa forma de correspondência entre as diversas instâncias da estrutura social".

E em suma, para Althusser que recolocou este problema nos anos 60: “Não se pode portanto pensar as relações de produção, no seu conceito, quando se faz abstração das suas condições de existência superestruturais específicas. Para tomar um único exemplo, compreende-se que a análise da venda e da compra da força de trabalho, onde existem as relações de produção capitalistas (a separação entre os proprietários dos meios de produção, de um lado, e os trabalhadores assalariados, de outro), supõe diretamente, para o entendimento do seu objeto, a consideração de relações jurídicas formais, constituindo em sujeitos de direito o comprador (o capitalista) tanto quanto o vendedor (o assalariado) da força de trabalho, bem como toda uma superestrutura política e ideológica que mantém e contém os agentes econômicos na distribuição dos papéis, que faz de uma minoria de exploradores os proprietários dos meios de produção, e da maioria da população os produtores da mais-valia. Toda a superestrutura da sociedade considerada se encontra, desse modo, implicada e presente, de maneira específica, nas relações de produção, isto é, na estrutura fixa da distribuição dos meios de produção e das funções econômicas entre categorias determinadas de agentes da produção." Assim, tais relações estruturais, apesar de toda rejeição por partidários da subjetividade humanista e do determinismo econômico, não são uma novidade enxertada no marxismo-leninismo e muito menos uma elucubração da escola althusseriana, pois José Stálin no ortodoxo “Materialismo histórico e materialismo dialético” teorizou, mesmo que ainda dentro do erro do primado das forças produtivas, que: “os fenômenos estão ligados organicamente entre eles, dependem uns dos outros e condicionam-se reciprocamente”. Mas depois, o maoismo lançou a palavra de ordem que provavelmente influenciou todos - em possível paralelo com o gramscismo -, de que: “Todo o poder nasce do fuzil, mas é a política que comanda o fuzil”.

Ou seja: que todas as sociedades de classes se reproduzem nas estruturas (com seus aparelhos industriais ou militares, e até palacianos ou soviéticos), onde ocorre uma reciprocidade, entretanto esta é dirigida pelo bloco do poder político, e isso não é unilateral, positivista, automático e muito menos eterno, pois no conhecido como modelo da casa (infraestrutura e superestrutura), em qualquer modo de produção até aqui, há uma complexa totalidade, no qual de tempos em tempos ocorre uma revolução social: “Em período de transição, há “não-correspondência” porque o modo de intervenção da prática política em vez de conservar os limites e produzir seus efeitos sob determinação de deles, os desloca e transforma. Não há uma forma geral da correspondência dos níveis, mas uma variação de formas, que dependem do grau de autonomia de uma instância em relação à outra (e à instância econômica) e do modo de sua intervenção recíproca”. Assim, esta é a teoria da transição balibariana, quando a reprodução da sociedade desloca-se por uma ruptura, algo muito diferente da quebra hollowayanista, no qual confusamente: “o foco da revolução no objetivo de conquistar o poder estatal implica a abstração do Estado das relações sociais de que é parte.”. E logo, por tudo isso, que no materialismo histórico é impossível abstrair Estado de relações sociais, a não ser que se recorra acentuadamente à gravíssimos erros, como os do hollowayanismo, segundo o qual: “Conceitualmente, se separa o Estado do complexo de relações sociais que o rodeiam e eleva-o como se fosse um ator autônomo. Atribui-se-lhe autonomia, se não no sentido absoluto da teoria reformista (ou liberal), pelo menos no sentido de que é considerado como potencialmente autônomo quanto às relações sociais capitalistas que o rodeiam”. Assim, atribuir que o Estado (e não a luta de classes, desde senhores e escravos até burgueses e operários), seria o motor da história no marxismo-leninismo e que a relativa autonomia estatal teria primazia sobre todas relações sociais de produção, e logo, também do poder político das classes (e não dialeticamente, que a relação classista de poder está acima, tanto da sociedade política quanto da civil, conforme crítica gramscista, escola francesa entre outros), onde assim, esta atribuição é nada mais do que uma simples argumentação da falácia hollowayanista.

Segundo Ângela Lazagna, isto constitui um grandioso absurdo, pois ao: “defender que “a existência do político é um momento constitutivo da relação do capital”, Holloway defende a inexistência da política antes do capitalismo de modo que esta passa a ser concebida enquanto um mero epifenômeno do capital. O limite dessa idéia é de que a política seria incapaz de se opor ao capital e derrotá-lo”. Isto sem esquecer que economicamente Astarita já demonstrou como Holloway desconhece mesmo as mais básicas categorias lógicas tendenciais que constituem a relação social do capital, e sem contar, por conseqüência, com seu berrante erro sobre classe social/frente única, formadas enquanto uma: “verdadeira miscelânea de grupos e categorias sociais, instituições, identidades e organizações (em especial, as ONGs), e diante da qual, e como se respondesse a um irresistível mecanismo reflexo, o progressista bem-pensante de nosso tempo não hesita e, celebrar esse magnífico florescimento das diversidades, “outridades” e diferenças que nos oferece o capitalismo moderno.”, onde assim sendo, a junção de todos estes pedaços configuram uma proposta que promove ao mesmo tempo, uma diluição da classe operária e um engrossamento da outridade pequeno-burguesa. Tal miscelânea é tão frouxa que Holloway coloca neste bolo abatumado, até mesmo a categoria social dos pós-modernos “prossumidores”, inventada por outro charlatão da sociologia anglo-saxã, que é o guru futurista Alvin Toffler.

E nisso tudo, também é importante ressaltar que esta relação estatal apresenta originalmente três oscilações, onde na primeira, o Estado está numa relação equilibrada com sociedade, na segunda, é uma trincheira avançada, e na terceira, é uma estrutura sólida que abole a autonomia social. Sendo que no caso histórico brasileiro há uma dinâmica própria marcada pelo autoritarismo de herança luso-colonial e escravagista, algo mais próximo em certos aspectos da terceira oscilação gramscista, mas que inversamente, isto tem um singular consentimento, pois na vida privada há uma aparência do que ficou conhecido como democracia racial, homem cordial, jeitinho brasileiro e até tratamento legal, que inclusive prevê igualdade, justiça, direito e etc. mas que na essência, aplicam-se para garantir justamente ao contrário. É quase como num desfile de carnaval, quando explorados, pobres e negros fantasiam-se de reis, dourados e libertos, mas ao chegar no final da avenida, caem-se as máscaras, e burguês, governante e policial mantêm-se como senhor, imperador e capitão-do-mato que sempre foram.

Assim, esta formação social e de Estado, pode ser muito bem sintetizada numa singular passagem da revista, onde: “No Brasil escravocrata, a luta processual travada quase sempre por juristas brancos, na segunda metade do século 19, contra o cativeiro negro recorreu, muitas vezes, a um conjunto de normas nunca colocado em prática mas ainda em vigor (recorreu-se mais longinquamente ao alvará real de 10 de março de 1682). Já na Prússia [atual Estado alemão] servil, os camponeses sempre, ou quase sempre, puderam recorrer (sem intermediários) à justiça para defender suas causas, mas a uma justiça patrimonial cuja autoridade máxima era o senhor de terras ao qual deviam obediência - pinta-se então o seguinte quadro: de um lado, uma justiça calcada em leis que não se cumprem e nem por isso deixam de vigorar; de outro, uma justiça cujas leis cumprem-se rigorosamente, inclusive quando se trata de suspender-lhes o cumprimento.”

E esta contradição se reproduz no Brasil capitalista, onde não foram grandes movimentos sindicais de trabalhadores domésticos, de pacientes e usuários da saúde pública em geral, de negros dentro e fora das universidades e instituições estatais, ou de pobres na extrema miséria e fome, que respectivamente saíram em massa às ruas e/ou nos meios de comunicação, para lutar por direitos das empregadas domésticas, pela vinda de mais médicos cubanos, pelas cotas raciais e pela transferência de renda mínima, mas sim foram os “juristas brancos” que colocaram tais vigoramentos, os quais na prática sequer tem universalização e ao mesmo tempo são leis que servem para estancar a luta de classes e impedir que os explorados lutem pelo que já existe estato-juridicamente, e assim, desta forma, sobretudo o governo democrático burguês continua a aperfeiçoar tal processo de consentimento desigual entre as contrárias partes. Outro caso exemplar disto, é a lei do salário mínimo, que consta no papel da CF/88 como sendo via de regra: “capaz de atender a suas [da classe trabalhadora brasileira] necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo”, que assim calculado pelo DIEESE é de R$ 2.992,19, entretanto no decretado presidencialmente é de míseros 724.

Ainda assim, isto não quer dizer que não existem importantes lutas sindicais de faxineiras, de usuários do SUS, de afrodescendentes e de moradores das vilas, mas que a própria oscilação desta estrutura estatal brasileira é um pesado movimento burguês que consegue muitas vezes cooptá-las e mesmo clientelizá-las, para assim numa forma perversa, continuar reproduzindo esta sociedade de classes, evitando preventivamente maiores rupturas e também desreconhecendo todo protagonismo dos explorados. Isso que acontece, também é algo muito próximo da descrição poulantziana sobre as relações entre classes sociais, no qual: “Estado permite, por sua própria estrutura, a garantia de interesses econômicos de certas classes dominadas contrários eventualmente aos interesses econômicos de curto prazo das classes dominantes, mas compatíveis com os seus interesses políticos, com a sua dominação hegemônica.”, onde assim: ”Essa autonomia relativa lhe permite (...) também intervir, conforme a conjuntura concreta, contra os interesses econômicos de longo prazo de uma ou outra fração da classe dominante: compromissos e sacrifícios por vezes necessários à realização de seu interesse político de classe.”

Enquanto que andersonianamente, quanto ao consentimento, no Brasil não há o menor acordo de igualdade democrática entre as classes sociais, pois este tratado existe somente entre os componentes do bloco de poder, que tem acesso direto e exclusivo aos recursos estatais-privados e hegemonia sobre a maioria da população, que na sua esfera privada, vive geralmente à margem das leis e do acesso aos direitos fundamentais previstos na “constituição cidadã”, e assim frequentemente recorrem à práticas que vão desde curas religiosas até comércio/produção informais, quando não também, da esfera criminal. E esta violentadora exclusão pelas classes exploradoras, que exercem historicamente a autoridade política, desde o começo com as capitanias hereditárias e indo até as atuais escolas, postos de saúde e instituições em geral, aparece invertida, como sendo uma liberdade (falsa), existente desde dentro das antigas senzalas até nas recentes lajes e conjuntos habitacionais periféricos, mas que, devido às relações sociais destas estruturas, reproduzem assim uma espécie de subsociedade. Onde exclusivamente as classes que chamam a si mesmas de “produtores da riqueza nacional”, “homens de bem” e “os que pagam impostos” nos bairros urbanizados, zonas chiques e centros comerciais-culturais, vivem em uma sociedade plena de direitos e deveres do cidadão, do saneamento básico à energia renovável. Entretanto, é esta mesma burguesia que explora sem pagar hora extra e adicional noturno à empregada doméstica, ou mesmo sem assinar a CTPS do pedreiro e ajudante, afinal estes são trabalhadores braçais e não fazem parte do bloco dos poderosos.

Deste modo, a fim de exemplificar ainda mais esta profunda divisão social entre dois brasis, dos estabelecidos e dos excluídos pelo bloco de poder, uma recente pesquisa de vários autores do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, resume muito bem a existência extremamente desigual dos brasis na fala de Dejanira: "Mas hoje a gente já vê que é uma categoria, um trabalho, mas não é reconhecida até por causa disso [herança escravista], porque muitos patrões ainda ficam com aquela de dar roupa velha, roupa usada e dar isso e aquilo e o valor mesmo do trabalho eles não reconhecem. Entende? Como uma troca assim de alimentação, moradia e não vêem que hoje é um trabalho como os outros que tem que ter tudo mais, todos os outros direitos."

Esta é uma realidade concreta, que diferentemente do irrealismo, do subjetivismo, do estagnacionismo e da crítica-aclassista, parte de uma análise dialética das múltiplas determinações das estruturas sociais, que assim formam uma unidade da diversidade, indo das contradições gerais às específicas, e voltando para o todo. Pois este é o método das leis universais, passando pelas leis intermediárias e indo até as leis pontuais, desde a grande explosão até a relação social que estabelece o preço do feijão e arroz no bolicho da esquina. Enfim, das estruturas e conjunturas de uma formação sócio-econômica e seus modos de produção. Isto no antigo Instituto de Marxismo Leninismo da Academia de Ciências da URSS isso era chamado de “Diamat”, e Jacob Gorender, que lá estudou, traduziu e mesmo criticou a aplicação mecanicista dos cinco modos de produção universais à formação brasileira, demonstrando que existem três diferentes níveis de leis categóricas: onimodais (válidas para todos os modos de produção), plurimodais (alguns modos de produção) e monomodais (em específico). Logo, há leis de economia política que são onímodas, leis da formação latino-americana que são plurímodas e leis dos modos de produção brasileiro que são monômodas. E assim, mesmo dentro de uma formação nacional, pode haver contradição entre modos de produção específicos, como na secessão estadunidense entre norte e sul, na colonização alemã dentro do escravismo colonial brasileiro e etc.

Por isso é evidente que nenhuma classe explorada na história da humanidade esperou por alguma justificação filosófica, religiosa ou mesmo de qualquer escritura que seja, para somente depois praticar a luta contra a classe exploradora, pois a matéria antecede a ideia, a existência tem primazia sobre a consciência, o real sobre o fantástico, a prática acima da teoria, o poder transpassa o aparelho e assim por diante. Contudo, mesmo assim é possível escrever um programa completo e mesmo uma teorização ultra-radicalizada, mas aplicando políticas eleitorais, reformistas, quixotescos entre outros métodos completamente fora da real necessidade histórica, que inviabilizam o empoderamento da luta de classes; ou até mesmo bem pelo contrário, não é impossível fazer uma modesta leitura popular ou do senso comum (como textos místicos, programas televisivos, tabloides sensacionalistas, novelas românticas, etc.) e disso acionar algum enfrentamento à patronal.

Porém ambos os casos são limitados, assim como também é a resolução de Léon Trotsky para a questão, segundo o qual: “não somos um clube sociológico, mas um partido político; devemos chegar a um acordo não sobre a estrutura de classe da Rússia ou a natureza de classe da economia czarista, ‘mas sobre as tarefas políticas concretas’”, tarefas estas que em essência pressupõe a sua errônea estagnação das forças produtivas capitalistas e o programa de transição trotsquista de 1936, como sendo a única solução para a crise de direção e suas tarefas. Uns e outros aplicam assim, uma política oposta à de Lênin, segundo o qual: “não se pode falar dos objetivos políticos imediatos enquanto não se esclarecerem as questões essenciais das tarefas do proletariado na nossa revolução”, sendo que o fundador do bolchevismo sempre polemizou e analisou profundamente a formação social e suas contradições sociais, antes e depois de 1917 (desenvolvimento do capitalismo russo, capitalismo de Estado soviético, etc.), e a partir deste concreto, desenvolveu o programa político comunista. Nunca a partir das conjunturas sem as estruturas sociais, muito menos da aleatoriedade de dados empíricos, estatísticos ou jornalísticos, sem a aplicação do método materialista dialético.

E quanto ao problema da ruptura deste Estado, o velho Lênin também não se cansou em repetir: o “governo, que "jamais cairá", nem sequer nas épocas de crise, se não for derrubado", inclusive de forma violenta pelo poder dos sovietes de operários, camponeses e soldados. Enquanto que na proposta determinista charlatã da  moda teórica “pós”, é a própria crise do Estado benfeitor capitalista que criaria novas possíveis oportunidades enquanto: “formas modificadas da luta de classes e, portanto, as formas mutantes do processo de constituição das relações políticas burguesas estão criando constantemente novas possibilidades de ação e extinguindo outras, ao irem transformando o significado para a luta de classes das instituições particulares”. Instituições particulares estas que formam uma gelatinosa frente popular de: “‘organizações não-governamentais’, de campanhas em torno de temas específicos, por meio das preocupações individuais ou coletivas dos professores, dos médicos ou de outras trabalhadoras e trabalhadores que procuram fazer as coisas de uma maneira que não objetive as pessoas, por meio de projetos comunitários autônomos, inclusive as pessoas, por meio de rebeliões.”, tendo como método: “a mudança de uma política de organização para uma de eventos", onde nestes casos: “tais eventos são clarões contra o fetichismo, festivais dos não subordinados, carnavais dos oprimidos, explosões do princípio do prazer”.

E assim, na penúltima página do livro-manual amarelo de eventos e fissuras com boas maneiras, que ensina supostamente como fazer cerimônias para mudar esta subjetivizada e idealizada sociedade mundial, mas desde que não se tome o poder político do Estado burguês (conforme exemplos mexicanos, espanhóis, holandeses, italianos, etc.), onde por conseguinte Holloway radicalizadamente arrebata que: "Então, como mudamos o mundo sem tomar o poder?” Resposta: "No fim do livro, tal como no começo, não o sabemos". E com isso relança suas palavras de ordem de que: "os leninistas sabem-no, ou costumavam sabê-lo. Nós não". "A mudança revolucionária é desesperadoramente mais urgente do que nunca, mas já não sabemos o que significa revolução". Encerrando assim apocaliticamente com a triste oração de que seu catecismo: “é um livro que não tem um final feliz".

Deste modo, diferentemente de receber curtidas, por ser considerado um cara de “cool” ou mesmo grande“cult”-zão, por poder debater determinado assunto, já que abordar tais questões sempre polêmicas na sociedade de classes é um tema sensível, e até mesmo questão de segurança pessoal, sustento e integridade física. Pois, apenas por criticar teoricamente a democracia neoliberal e o Estado burguês, bem como participar do movimento estudantil contra o aumento de mensalidade, já tive a matrícula cancelada de uma graduação na àrea de ciências humanas na juventude, isso que na época, sequer falava de marxismo.

Depois trabalhando numa metalúrgica, tive a porta do armário arrombada pelo encarregado e a mochila revistada, para confirmar quem estava distribuindo materiais de esquerda e sindicais. E também, recentemente no Facebook, participei dos dois maiores fóruns virtuais brasileiros de debates sobre o tema, que são os grupos Karl Marx Brasil e Socialismo, sendo sumariamente expulso de um e depois de outro respectivamente, apenas por postar que o Brasil é capitalista dependente, que a contradição é entre obreiro/patronal, que trabalho produtivo é fonte de mais valor, que atualmente inexiste Estado socialista e que a história da URSS pode ser explicada pela própria luta de classes (conforme Charles Bettelheim entre outros). Tais tópicos geraram uma reação principalmente por parte de pró-cubanos/coreanos, trotsquistas moderados (centristas como se diz), revolucionários democratas burgueses e anti-feudais em geral, sobretudo do PCML, que promoveu uma campanha pela imediata expulsão e apagamento das postagens. Por isso, contrariamente à teoria da bifrontada classe média, em nada há um espaço de condição favorável para expressar um posicionamento político, seja na rua ou na rede, muito menos no trabalho ou na escola, ou ainda mesmo utilizando o pouco tempo, que sobra de longas jornadas de trabalho produtivo e serviços domésticos, para fazer militância e postar que está escrevendo comentários sobre um papo cabeça, ou até mesmo redigindo uma proposta sindical classista sobre o dissídio da categoria, etc. Isto simplesmente pelo fato de que tal atividade não é bem-vista, e muito menos gera reconhecimento social, bem pelo contrário, pois primeiramente, desde o chefe imediato, passando pelo pelego e indo até a inteligência policial, todos tem acesso à informações e às redes sociais, e em segundo lugar, também não vai ser considerado como um passatempo instrutivo ou criativo. Pois diferente das necessidades de acumulação de experiências estética e curricular, própria da pequena burguesia para diferenciar-se nesta sociedade de classes, os trabalhadores (materialmente sem “capital intelectual” e sem meio de produção, apenas com a força de trabalho) necessitam cotidianamente fazer consertos, limpezas, pinturas, arrumações e construções na casa alugada ou financiada, ou mesmo prestar cabritos por fora para aumentar seu baixo salário. E esta esfera do fazer não tem o menor sentido de mudar o capitalismo, mas é parte constante da vida, muitas vezes nem necessariamente remunerada, e onde também ocorrem acentuadas contradições sociais, familiares e de gênero.

E recapitulando, assim historicamente, antes de mais nada, informo que nos anos 90 fiz os primeiros estudos sobre “O colapso da modernização”, e depois de um tempo afastado, entre 2003 e 2004 voltei a estudar e a participar do movimento estudantil e dos debates políticos no então Yahoo Grupos, que em 2005 reuniu os participantes numa oportunidade de questionar diretamente com Robert Kurz sobre estas e outras questões na Usina do Gasômetro, debate este que continuou num círculo de estudos sobre O Capital, e que assim em 2007 escrevi um primeiro longo comentário-resposta aos kurzistas e afins na rede social de então, uma comunidade temática do Orkut, no qual devido a deletar meu perfil, está provavelmente perdido para sempre... Restando disso apenas alguns pedaços de comentários posteriores, onde pode-se ler que Cláudio responde para Rvgv (apelido que usava naquela época): “Para um "organizador revolucionário" como vc é difícil entender que o proletariado realmente produtivo já seja uma minoria e que, infelizmente, a classe média, aburguesada e conformista, seja a maior produtora de mais-valia relativa que resta. É um paradoxo, mas é real.” E depois, o debate na comunidade prosseguia com fraseologias da mais pura e amarelada teoria radical: “Essa crítica vale tanto quanto reclamar que todos eles deveriam ser faxineiros para poder realmente escrever uma teoria correta (que parece ser o argumento do Juca naquele texto citado por vc), como se todos não sofressem de uma ou outra forma o peso das coerções do capital, inclusive o próprio capitalista (que muitas vezes hoje é o operário fabril classe média aliás). Isso não iguala todos numa pseudo humanidade, mas é claro que todos vivem num mundo social objetivo e interligado”. Tais comentários expressam assim um estranho preconceito de classe contra faxineiros e afins, sendo que minha mulher trabalha na limpeza de um hospital 100% SUS, e eu mesmo já fui associado ao SINTEPS (sindicato unificado de porteiros, faxineiros, cortadores, terceirizados, etc.), quando trabalhava num luxuoso condomínio horizontal de classe média e alta. Sendo que Juca e outras referências citadas, são da revista conselhista Enfrentamento, do ano 2006, com um número inteiro dedicado a criticar os revisionismos de Kurz e seus partidários. Também informo que não pude questionar o mesmo com  Holloway, quando este esteve na capital do Rio Grande do Sul, por motivos de trabalho naquela semana.

Nisso tudo, é notório o fato de que este marxismo ocidental e a teoria crítica em particular, nunca priorizaram produzir significativamente um programa político-partidário ou uma intervenção mais direta nos movimentos sindical, camponês, etc. E ao simplesmente falar isso naquele círculo de O Capital em 2006, ouvia-se diversas respostas perturbadoras por parte dos “radicais”: que a classe operária não existiria mais, que era necessário distanciamento dos movimentos sociais para fazer a crítica, que o capitalismo estava no derradeiro colapso de reprodução ampliada das forças produtivas, que os meios de produção da terceira revolução tecnocientífica permitiriam criar comunidades anti-econômicas, que a teoria crítica estava para além de esquerda, política comunista e materialismo histórico, entre outras evasivas que nem merecem ser lembradas, por respeito aos trabalhadores brasileiros, sobretudo aos faxineiros, que lutam nos sindicatos, nas ocupações e nas greves. Mas enquanto isso, somente alguns faziam contraposições em tal roda de debate sobre O Capital. E assim, entre as mais diversas correntes, é a do marxismo ocidental acentuadamente desde o pós-guerra, que caracteriza-se como uma das mais distantes da prática política, e até mesmo propondo uma bem assentada negação da mesma, quando não, chamando direitamente a polícia para reprimir o movimento estudantil, como ocorrido em 1969, a fim de que este não viesse a prejudicar seu encantado castelo acadêmico, não-imanente e intelectualizado. Pois conforme escrevia Cláudio naquela rede social de outrora: “Marx tem um segundo momento da crítica, que a radicaliza e QUER SAIR dessa imanência. Reconhecer isso teoricamente foi mérito de Adorno e de Kurz”. Então, no frigir dos ovos, sair desta torre de imanência, isto é, dos problemas urgentes, das necessidades dos explorados e do fetiche da luta de classes, é em última instância telefonar para a polícia, sentar e fazer a crítica, recomendar que o operariado não tome o poder político ou preconceituar que faxineiros e afins não possam teorizar e agir na luta de classes?

E, em meio a toda essa crítica e saída pela tangente da imanência, também os radicais do kurzismo-hollowayanismo publicam atualmente e sem nenhum receio ou menor descaramento que: “não é necessário um partido político para se fazer ouvir numa democracia - os movimentos sociais, organizados em torno de uma pauta específica, talhados pela experiência diária da luta por demandas localizadas, são perfeitamente capazes de endereçar suas reivindicações ao poder público de maneira contundente. Na verdade, alguns de nossos parlamentares mais ativos já adotaram estratégias inspiradas nos movimentos sociais, organizando suas plataformas de trabalho com base quase exclusiva em questões bem discernidas e pontuais, que lhes serve como base...”. Pois, assim mesmo que igualmente no passado, os teóricos franquefurtinianos conseguiram ser os precursores em negar a centralidade da classe operária – e por tabela também a necessidade de uma vanguarda centralizada no partido comunista -, como sujeito revolucionário para a construção do socialismo e a derrubada da democracia burguesa, pois conforme Herbert Marcuse, pós-modernamente seriam então estudantes, jovens alternativos, classes médias entre outras frações mais ou menos aburguesadas, que formam as novíssimas vanguardas políticas e estéticas das sociedades industriais conceituadas de neocapitalistas: “A Nova Esquerda, além disso, de modo algum está circunscrita à classe operária como classe revolucionária, com exceção de pequenos grupos. Ela própria não pode ser definida sob o ponto de vista de classe, já que não forma uma classe definível. É constituída por intelectuais, por grupos de movimentos de direitos de cidadãos, pela juventude, e por outros que, à primeira vista não parecem nada políticos, como os hippies.” E ainda por cima, tal renomado intelectual burguês que colaborou com a OSS (agência que depois mudou de nome para CIA) e exilou-se nos EUA, defendeu muito bem os interesses de: “uma sociedade democrática e que efetivamente funciona, que normalmente, pelo menos, não trabalha com terror. E é - e nisso estamos completamente de acordo nos Estados Unidos da América do Norte - uma oposição contra a maioria da população... Esta oposição contra o sistema tal como foi desencadeada primeiramente pelo movimento dos direitos do homem”.

E como se ainda não bastasse de argumentação radical, no Fórum Social Mundial, o papa de então desta corrente teórica, também reafirmava plenamente numa célebre entrevista, que seria primordial apenas sentar e fazer a crítica: “E não há propostas mesmo? É sentar e fazer a crítica? Sim. Mesmo os ainda empregados nos oásis de produtividade precisam preocupar-se com isso, porque permanecem em uma situação precária. É o que chamamos, na Alemanha, de mortos em viagem de férias. Eles estão bem agora, mas o destino iminente é terrível.” Crítica esta dita como radical da sociedade produtora de mercadorias e fetichizada, porém sempre mantendo aquele devido distanciamento dos movimentos sociais (distância esta que parte do eurocentrismo e da negação do ponto de vista da classe operária), onde o proletariado seria automaticamente um sujeito negativo, e no qual também, para o finado publicista autônomo, a teoria crítica nunca teve finalidade de aplicações práticas numa política comunista internacional.

E ainda por cima, Kurz ressaltou que não queria ser considerado enquanto um guru dos movimentos antiglobalização. Logo, este marxismo ocidental - em que pese suas melhores contribuições, pesquisas e leituras não-tradicionais dos clássicos, mesmo que em geral para limitados fins de edição teórica e debate especulativo -, foi e continua sendo basicamente, o contrário do chamado marxismo-leninismo (ou se preferir "oriental" e suas diversas linhas, que são praticamente um mundo à parte como analisa Francisco Rodrigues, indo desde os mais revolucionários até os piores revisionismos). Por conseguinte, mesmo com algum adepto reivindicando-se, às vezes, enquanto "bolchevique ocidental", contudo sempre torna-se importante frisar que, na maioria das vezes os mesmos criticaram e/ou renegaram a luta da classe operária, o partido comunista, a ditadura do proletariado, o socialismo como etapa transitória e tudo mais. Tanto que, e isto é sempre muito importante refrisar, nunca na história iniciaram uma guerra revolucionária, tomaram o poder político ou mesmo dirigiram significativamente sequer uma única frente massiva, mas em contrapartida, quase sempre participaram plenamente da esfera estatal de educação universitária, da lista dos mais vendidos do segmento no mercado editorial e da ocupação de sucedidas carreiras intelectuais e afins - para com isso, continuar reproduzindo esta teoria crítica tanto do capital quanto do trabalho.

Exceção seria talvez, a participação histórica do movimento operário conselhista e autonomista, porém estes partidos (em sentido ampliado), não são necessariamente a gema do marxismo ocidental, mas sim uma corrente prática do comunismo, sobretudo europeu no século 20, caracterizado por majoritariamente negar a direção de uma vanguarda central e também propor que somente instâncias dos movimentos sociais, com métodos mais transparentes, abertos, assembleistas e horizontais possíveis, poderiam derrotar um Estado burguês e suas forças armadas... fato este que nunca ocorreu mas que os mesmos continuaram pregando abertamente e criticando os partidos comunistas, a ponto de Lênin chamá-los como pequenos socialistas de tribuna: “Ao que parece, os "tribunistas" holandeses, que tiveram o azar de nascer num país pequeno, com uma tradição e condições de situação legal particularmente privilegiada e estável, e que nunca assistiram à sucessão das situações legais e ilegais, desorientaram-se e perderam a cabeça, favorecendo invenções absurdas.” Isto é, na prática uma versão marxizante do antigo sindicalismo revolucionário de 1923 e também de certa forma, um pré-hollowayanismo, desde que extraia-se o elemento operário destes movimentos, no qual também em alguns pontos, a ação “anti-política” de algumas organizações brasileiras, como por exemplo, o grupo Crítica Radical, se aproximam muito deste estilo militante de participação, guardadas as devidas diferenças. Entretanto há exceções neste movimento operário (ver Amadeo Bordiga entre outros comunistas abstencionistas). Mas para todos os casos, seus resultados foram bastante limitados e o problema da derrubada violenta da ordem burguesa foi mais ou menos postergado, como ainda é no caso dos neozapatistas mexicanos. Por conseguinte, este é outro exemplo frequentemente citado, o do próprio EZLN, que é um exército simbólico e apoiado por um leque frente-populista burguês, composto globalmente desde pela madame Mitterrand até a contra-cultura anarcopunk, reunindo assim setores antagônicos mas que coexistem nos mesmos espaços intergalácticos, caracóis, marchas e eventos. Nisto, torna-se importante exemplificar com os comunicados do mesmo para o EPR, onde expresssam que: "vocês lutam pela tomada do poder. Nós pela democracia e justiça. Não é a mesma coisa... Não queremos o seu apoio... o apoio que almejamos é o da sociedade civil nacional e internacional e são as mobilizações pacíficas e civis que desejamos".

Sendo assim, no contexto esta alardeada: “crítica da economia política em sua agudeza e contundência efetiva, para além de uma teoria dos antagonismos sociais centrados no conflito capital versus trabalho”, torna-se cada vez mais uma leitura praticamente autoexplicativa de si mesma e de suas restritas referências históricas, sem a necessidade de uma rigorosa formatação academicista, infinitas notas de rodapé, palavras difíceis que  não constam em dicionário de bolso e insinuantes citações anti-faxineiros e contra a classe operária em geral, muitas vezes remetendo a versículos da bíblia do marxismo ocidental, que é a publicação de língua inglesa Revista Nova Esquerda. Aliás, teoria crítica de nova esquerda esta que, nasceu revisando a centralidade classista, com a considerada carta aberta fundadora lançada por Wright Mills, onde: “Em terceiro lugar, o que eu não entendo muito bem sobre alguns escritores da nova esquerda é porque eles se agarram tão poderosamente na ”classe operária" das sociedades capitalistas avançadas como a agência histórica, ou mesmo como a agência mais importante, em face da verdadeira evidência histórica de que agora está contra essa expectativa.”

Assim continuando, nisto é que: “Holloway deriva a crítica da positivação do valor, do trabalho e da classe trabalhadora no marxismo tradicional: “a classe trabalhadora pode ser considerada revolucionária apenas (...) na medida em que luta contra a sua própria existência...”, isto pois: “Holloway reelabora o conceito de luta de classes, não mais apenas como luta do trabalho contra o capital, que é o seu nível mais superficial, mas com a emergência de um nível teórico-prático mais radical, a luta do fazer contra o trabalho. No que se refere à luta de classes, Holloway a redefine, em sua concepção mais radical, como a luta contra a classificação.” Teoria esta que desenvolve-se na: “retomada da crítica marxiana radical do valor e do trabalho (abstrato), da negatividade da classe trabalhadora e da sua classificação, a reconfiguração qualitativa do fazer social criativo e a reelaboração do conceito de luta de classes e das formas de organização anticapitalistas são temas obrigatórios para a teoria crítica emancipatória do século XXI, e neste livro encontram a sua devida centralidade. O sujeito emancipatório só pode surgir do confronto teórico prático com essas questões e seus monstros.” Já que: “desempenham um papel importante as teorias de classe subjetivistas, com destaque para aquelas defendidas por autores como Hardt/Negri e John Holloway”. Justificando sob a requentada argumentação no qual: “o conceito de classe deixa de ser importante, já que no momento da guerra aberta de posições, o componente classista está sempre imbricado com outras ocorrências estruturais e conjunturais, e o caráter “de classe” da luta é sempre invisível, porque sobredeterminado. Assim, sendo a consciência libertada da definição especular classe-sujeito - o que a torna a priori indeterminada - o móbil da ação política, i.e., da “luta” em sentido estrito, que se dá não mais contra um inimigo burguês, mas diretamente contra as formas da sociabilidade, o componente classista parece não produzir qualquer efeito político.” Para assim concluir com a contra-revolucionária sentença de que: “Ou seja, há razões suficientes e já elaboradas para que Jappe (e a Nova Crítica do Valor) não considere que a “ciência da luta de classes” seja o máximo que se pode alcançar em termos de crítica do capitalismo. No livro resenhado o autor avisa com todas as letras que já há “vinte anos que a reflexão teórica começou a levar em consideração essa mudança fundamental””

Logo, o resultado desta desexoterização ocidental de Marx tende a virar quase que inevitavelmente para o lado da burguesia, pois renegam - de forma aberta, oculta ou mesmo tudo bem misturado, como numa caipirinha de cachaça com limão - o lado do operariado, do campesinato e etc. Chegando ao cúmulo de teorizar sobre a classe média como sendo atualmente parte de uma nova aristocracia operária. Sim, isso mesmo: a pequena-burguesia assalariada seria agora parte integrante da classe operária, porém mais qualificada e melhor assalariada que os demais membros. Questão esta que em linhas gerais já está contemplada nos parágrafos acima sobre o cometário-resposta, e no qual, o kurzismo-hollowayanismo tenta negar as classes sociais e acima de tudo revisar os trechos de Marx sobre a pequena burguesia, onde consta que: “O sistema feudal já não funcionava mais, então veio à manufatura e o crescimento da pequena burguesia. Só que o comércio não parava de crescer então veio às máquinas...”, onde assim ironicamente a sociedade capitalista é para tal classe um: “mundo burguês com todos os ‘trabalhadores improdutivos’ é o melhor de todos os mundos. (...) Era mister descobrir um lugar tanto para esses ociosos como para os respectivos parasitas no melhor sistema universal possível”. Enfim, um mundo onde a burguesia, seja grande ou pequena, não é obrigada a fazer nenhum trabalho produtivo, braçal, pesado e mal remunerado.

Por isso e para marcar nome aos bois: “Sem meias palavras, o mito da classe média é o de que ela não faz parte da classe trabalhadora”; mas, na verdade, “a classe média é simplesmente a fração mais bem paga da classe trabalhadora”. É possível que esse estrato social médio, essa espécie de nova “aristocracia operária” venha a enxergar-se como classe trabalhadora...” Assim, este suposto estrato médio diferenciado do restante da classe operária tradicional (aquela classe social que deveria lutar contra a sua própria existência, aquela classe embrutecida pelo trabalho de 8 à 12 horas por dia, mais extras, regime 12 x 36, bicos, deslocamentos, sobreavisos, marmitas e etc., aquela classe que muitas vezes tem um ou mais empregos precarizados, isso quando não está desempregada, aquela classe que possui baixa escolaridade e onde a mulher na maioria das vezes tem dupla ou tripla jornada), teria assim então, tal nova fração aristocrática, duas frontalidades na vida social: uma esfera de tempo dedicado ao trabalho assalariado ou até mesmo por contra própria (para o reproduzir de seu modo de vida acima da média da população), e outra especialmente para se dedicar ao empreendimento da utopia do agora (como fazer blog, hacker, bike, taz, poetic terrorism, video maker, indie music, underground...). Assim, esta história seria caracterizada enquanto: “tendências imanentes que podem levar a dita “classe média” à esquerda. No momento de crise capitalista e ascensão de movimentos fascistas, conceituar e agir politicamente nesses estratos médios assume importância destacada.” E enfim, enquanto que a classe operária precisaria negar a si mesma, a pequena-burguesia teria que se afirmar à esquerda? Isso chega a ser tão cômico que lembra muito um repente nordestino de Caju & Castanha sobre a diferença de classe, onde: “rico se forma pra trabalhar em cartório, gabinete especial, telefone, escritório, engenheira, medicina, exame, laboratório. (…) pobrezinho fica velho sem leitura, quando aparece um emprego é na rua da amargura, pra jogar tambor de lixo, no carro da prefeitura.”

Então, quer dizer que esta dita classe média seria uma fração mais qualificada do operário produtivo ou também chamado de “proletariado tecnológico e científico” como diziam alguns revisionistas soviéticos e neoesquerdinhas, desde os anos 50 e 60? E que esta situação de classe social (e aqui também lembremos da chamada crise do Estado benfeitor que geraria as novas possibilidades de quebras, clarões, festivais, carnavais, prazeres...), levando assim a classe média, ou seja, a pequena burguesia urbana para uma suposta a posição de classe em contradição com o valor, mas que a mesma não pode levar a classe operária de bota, capacete, luva,  máscara e macacão para a contradição com a patronal e a tomada do poder político? Que a pequena burguesia pode ter publicistas autônomos, institutos de pesquisas, professores catedráticos, teóricos radicais pequeno-burgueses e uma série de outros dirigentes de grupelhos intitulados apartidários ou particulares, que em geral andam em repetitivos circuitos, mas que contrariamente, a classe operária não pode ter um partido comunista revolucionário, um exército guerrilheiro vermelho e uma frente única dirigida pela mesma, para instaurar a ditadura do proletariado e derrotar até mesmo esta pequena-burguesia com suas teorias e práticas supostamente de nova esquerda, radicais e progressistas? Não pode eliminar a diferença entre trabalho braçal e intelectual com uma grande revolução cultural proletária?

Mas qual a justificativa desta posição teórico-crítica assim tão radical? Que a qualificada pequena e média burguesia assalariadas, seriam parte da classe social que realmente produz mais valor relativo na analisada como atual crise do capitalismo e da forma Estado, numa fissurada dominação fetichista sem sujeito de centralidade no trabalho, em meio ao colapso da modernidade e à reestruturação tecnológica pós-fordista, conforme expresso muitas vezes ao longo deste debate?

E voltando às origens desta teoria crítica ocidental: fica explícito que atualmente a mesma contradiga suas origens, pois o próprio Lucio Colletti filosofou sobre os problemas relativos à: “cultura que um intelectual pequeno-burguês daquela época na Itália poderia sentir em relação ao estalinismo”, ao fazer um depoimento sobre os preceitos de sua classe social e do papel secundário que a mesma teria na luta de classes e no partido comunista.

Assim como Mills, que ao analisar a classe média, denominada de colarinhos brancos, caracterizava a mesma não como tendo qualquer frontalização anticapitalista, mas sim como aqueles: “setores abertos ao nôvo empresário, que geralmente se confundem de várias maneiras, são as atividades ainda imprecisas: a) ligações entre diversas burocracias comerciais e entre as emprêsas e o govêrno; b) relações públicas ou a interpretação e justificação para o público da existência de novos podêres; c) as novas indústrias criadas no último quarto de século, especialmente as que implicam a venda de serviços pràticamente intangíveis, como a publicidade, p. ex.", onde assim sua rentabilidade salarial ou prestamista superior à média da população, provinha de: “contactos intangíveis e de canais de acesso". Contatos e canais estes que justamente a classe operária e camponesa estão privadas pelo capital em geral, mas principalmente, pela própria pequena-burguesia que os explora e praticamente monopoliza. Lembrando ainda que Mills (assim como também Pierre Bourdieu entre outros cientistas sociais), insistiu em criticar o linguajar difícil nas ciências humanas, que acabam afastando o entendimento do grande público e tornando a teoria inacessível (sociologuês, economiquês, jurisdiquês, filosofês, etc), alertando sempre que os: “indivíduos, na agitação de sua experiência diária, adquirem frequentemente uma consciência falsa de suas posições sociais.”

Portanto, considerando mesmo que sejam diferentes análises da atual sociedade, com partes até mesmo no todo contrárias, as conclusões tiradas da teoria do valor-trabalho imaterial de Hardt e Negri tem muito mais proximidade que distanciamento, tem mais sinal de mais, do que sinal de menos, por assim dizer, com a radicalíssima agenda kurzista-hollowayanisa, no que concerne com a assentada trindade de “anti-política”, “não-poder” e “bifrontalidade”: ambas afirmam que um novo estilo de vida cotidiano dentro do modo de produção capitalista, mais acessível é claro para a pequena burguesia da nova esquerda, ou seja, em geral  também para os conhecidos como trabalhadores imateriais (ou de acordo com sua preferência teórico radical, da  classe média bifronte, isto é, daquela classe que não trabalha braçalmente transformando matéria-prima em mercadoria, mas que apenas na maioria dos casos, supervisiona intelectual, digital ou mesmo executivamente), enfim, aqueles mesmos que segundo tal revisionismo, poderiam então substituir a classe operária no processo material de produção do valor, tendo uma frente comportamental na quebrada e também negando a violenta tomada de poder por parte de operários e camponeses.

Logo, como toda essa pauta já foi extensamente debatida dentro do marxismo, ganhando forte expressão sobretudo a partir das análises posteriores à queda do muro de Berlim e da emergência das teses pós-marxistas, pós-operaístas e pós-estruturalistas, entre outros mais ou menos charlatões da onda “pós”. Sobre isso, Sérgio Lessa caracteriza tais tendências como contendo os seguintes erros: da revolução passiva (indistinção entre comportamento, reforma, revolução, etc.), da classe expandida (pequena burguesia como sendo operária) e do subjetivismo (romântico burguês), no qual resumidamente: “A transição para o comunismo é portanto, o processo cotidiano, paulatino, contínuo, de substituição de um estilo de vida por outro - ou no léxico empolado que empregam, o devir...”, para assim renegar mais uma vez a violência revolucionária, o poder proletária e o próprio comunismo. E sobre isso ainda, Poulantzas na época influenciado pelas violentas lutas de classes da revolução chinesa, demonstrou que a nova pequena burguesia assalariada não faz trabalho braçal e muito menos produtivo de mais valor, e logo, não pode compor socialmente a classe operária, nem mesmo numa suposta fração mais aristocrática que seja: “assalariados no comércio, propaganda, marketing, contabilidade, bancos e companhias [...] não formam parte da classe operária”, e sequer: “técnicos e engenheiros subalternos diretamente envolvidos no trabalho produtivo”, sendo que tal pequena-burguesia muito frequentemente reproduz um comportamento de “anticapitalismo do status quo”, aliás, que é muito bem demonstrado, tando na teoria quanto na prática, pelos partidários de nova esquerda, franquefurtianismo e crítica radical.

Porque, o prazeroso mesmo é poder sentar e fazer a crítica, para negar distanciadamente - em cômodos quartos de hotéis, iluminadas salas acadêmicas e hiperconectados home offices -, todos os principais pontos programáticos da luta pela construção do poder político da classe operária. E ainda por cima propagandear, de forma mais ou menos revisionista, que neste século 21 finalmente, a pequena burguesia agora é parte aristocrática da classe operária, que produz relativamente mais valor, e que como se ainda não fosse suficiente, também lhe sobraria algum tempinho vago por aí, nas quebradas, para poder fazer aquela militância revolucionária por mais flores, cantos, eventos, instituições particulares, apartidarismos e utopismos. Mas, tudo isso desde que cuidadosamente os explorados não se unam para construir uma ditadura do proletariado, derrotando assim a burguesia e todas suas frações, até mesmo os reacionários das: “camadas médias - o  pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão e o camponês...”, que politicamente são: “todos eles contra a burguesia para salvar da ruína sua existência como tais camadas médias. Não são pois, revolucionários, sim conservadores”, e assim, concluindo este assunto com Marx, que estes indivíduos da classe média realmente não são operários, mas sim burgueses, pois como analisou na carta para Pável Annenkov: “Em uma sociedade avançada, o pequeno burguês, por virtude da posição que nela ocupa, se faz socialista de uma parte e economista de outra, é dizer, se sente deslumbrado pela magnificência da grande burguesia e experimenta uma vez a simpatia pelos sofrimentos do povo. É ao mesmo tempo burguês e povo. Em seu foro interno se ufana de ser imparcial, de fazer encontro ao justo equilíbrio, que tem a pretensão de distinguir-se do restante da média. Esse pequeno-burguês diviniza a contradição, porque a contradição constitui o fundo do seu ser. Ele não é outra coisa que a contradição social em ação. Deve justificar teoricamente o que ele mesmo é na  prática.”.

E pouco tem consciência disso, como já alertava o fundador Mills, ou melhor, como também exemplifica Löwy sobre a rebaixada memória hollowayanista: “Uma das minhas principais objeções à discussão de Halloway sobre a questão do poder, antipoder e contrapoder é seu caráter extremamente abstrato. Ele menciona a importância da memória para a resistência, mas há muito pouca memória, muito pouca história em sua argumentação, pouca discussão dos méritos ou limites dos movimentos revolucionários reais, marxistas, anarquistas ou zapatistas desde 1917. Em uma das poucas passagens onde ele menciona alguns exemplos históricos positivos de antifetichismo e autodeterminação, Holloway se refere à “(...) Comuna de Paris... É possível mostrar que em cada um destes exemplos temos formas de poder democrático que requerem alguma forma de poder-sobre.” Justificando assim este novo pacote da teoria crítica, que conforme os mesmos, surge com Colletti, aquele mesmo que não por acaso, desenvolveu um coro neoliberal com Norberto Bobbio sobre o atribuído problema da ausência de teoria política e estatal em Marx: “O único planteamento da questão desde uma perspectiva que cinde radicalmente o econômico do político, como faz Colletti, instala este autor conceitualmente a “jaula de ferro” da tradição liberal. Não surpreende, em consequência, que arremate sua argumentação sustentando que todo discurso acerca das vinculações entre dominação e exploração, ou entre o político e o econômico, cai fora do campo da teoria política “em sentido esrito”, retruca Borón.
  
Por fim, faço as considerações finais deste comentário-resposta concordando com as mesmas conclusões de Lazagna: “Portanto, que ao defender que o Estado não é mais um centro de poder, Holloway passa a incorporar teses do próprio pensamento neoliberal e pós-moderno, como a do desaparecimento do capital nacional e da perda da importância territorial, cultural e política dos Estados-nações, da perda da centralidade do conceito de classe social enquanto instrumento de análise das contradições sociais e acaba por fortalecer, apesar de este não ser seu objetivo, uma visão que naturaliza o capitalismo e obscurece suas contradições, mesmo que esta se apresente como contra a sua atual fase neoliberal (como, por exemplo, a visão defendida pelas ONGs, pelo movimento altermundialista, etc).” Assim como é a Sinal de Menos, número 10.





Texto escrito por um colaborador do blog um quê de Marx, Augusto COLLING. ДЦБЦЖЋФ ҨФГГЇЙБ (Rvgv), Junho de 2014.
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A indústria e a alienação do trabalho A charge de Caulos, de 1976, apresenta uma crítica bem humorada ao processo de alienação do trabalho sofrido pelos operários nas fábricas. Fonte original: Caulos. Só dói quando eu respeiro. Porto Alegre: L&PM, 1976.p. 65. Digitalização: Fernanda E. Mattos, autora e colunista do blog Um quê de Marx. É permitido o compartilhamento desta publicação e até mesmo a edição da mesma. Sem fins lucrativos e cite a fonte. Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional .