A
AIT teve vida curta, sendo esvaziada com a transferência de sua sede para Nova
York em 1872 e dissolvida quatro anos depois, mas um século e meio após sua
fundação ainda é capaz de provocar controvérsias, como as disputas entre
comunistas e anarquistas. Organizador do livro “Trabalhadores, uni-vos!
Antologia política da I Internacional” (Boitempo, tradução de Rubens Enderle),
o cientista político italiano e professor da Universidade York, no Canadá,
Marcello Musto, explica que nenhum dos dois grupos eram hegemônicos no seu
início e não se pode creditar o seu fim a uma rixa pessoal entre Karl Marx e
Mikhail Bakunin, como costuma se fazer. A obra, recém-lançada no Brasil, traz
80 textos, sendo que 69 inéditos em português. Na segunda-feira, ele participa
do encontro “A I Internacional, 150 anos depois” na Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ).
—
Quando os milhares de trabalhadores se encontraram em Londres há 150 anos, a
ideia era construir um fórum internacional de debates sobre os problemas que os
atingiam. Inicialmente, ninguém pensava em criar uma organização que
coordenasse a luta política de toda a classe. Os sindicatos britânicos, que
eram o principal grupo da Internacional, estavam interessados em questões
econômicas e viam a associação como um meio de atingir os seus objetivos, como
impedir a importação de mão de obra estrangeira — explica o professor.
Uma
das principais características da associação foi a capacidade de aglutinar
correntes políticas antagônicas. De reformistas a revolucionários, de
social-democratas e mutualistas a anarquistas, todos estavam representados,
mesmo que em diferentes graus. No entanto, as concepções de cada grupo e o
espaço ocupado por eles na organização foi mudando com o passar dos anos. Musto
cita o caso da utilização da greve como instrumento de pressão. A maioria dos
franceses e os fundadores do Partido Social-Democrata Alemão eram contra. Só
que, a partir de 1866, com a multiplicação das paralisações em diversos países
europeus e o sucesso alcançado por elas, todas as tendências se convenceram de
que se tratava de um recurso fundamental.
Outro
ponto que sofreu mudanças significativas foi o envolvimento dos trabalhadores
no jogo político. Muitas correntes se opunham, pois acreditavam que a batalha
deveria se restringir a melhorias das condições econômicas e sociais. Foi
graças à Comuna de Paris, em 1871, o ensaio de uma democracia operária que
durou 40 dias, que se chegou ao consenso sobre a necessidade de se encontrar
formas de organização política. Neste processo, assim como em toda a existência
da I Internacional, Karl Marx teve um papel central. Musto argumenta que sua
importância foi principalmente teórica, já que o pensador alemão nunca atuou
como mobilizador das massas e participou de apenas um dos seus vários
congressos.
—
Seus dotes políticos permitiram a Marx conciliar aquilo que parecia
inconciliável e asseguraram um futuro à Internacional. Sem o seu protagonismo,
ela seguramente teria caído no esquecimento na mesma velocidade que muitas
outras iniciativas semelhantes que a precederam. Foi Marx quem realizou um
programa político não excludente, embora firmemente classista, como garantia de
uma organização que ambicionava ser de massas, não sectária.
O
protagonismo de Marx a que Musto se refere se tornou numa espécie de
lugar-comum sobre as razões do fim da associação, em especial a disputa com
Bakunin e os anarquistas. Na introdução da antologia, o cientista político
recupera essa história em detalhes. Realmente as discussões entre os dois não
eram nada amistosas. Muitas vezes o pensador alemão preferiu ridicularizar as
posições do exilado russo, que respondia com acusações e insultos pessoais,
salvo raras exceções. O fato é que os caminhos defendidos por cada um para a
sociedade socialista, onde não haveria mais classes, eram diametralmente
opostos.
Musto
ressalta, entretanto, que muito mais profundas eram as transformações da Europa
no período. O próprio congresso da associação realizado em Haia, em 1872, é
descrito como um verdadeiro caos. A repressão à Comuna de Paris, no ano
anterior, que deixara cerca de 20 mil mortos, o fortalecimento do Estado-nação
com a unificação da Alemanha e da Itália, a expansão da Internacional para a
Espanha e outros países cuja estrutura econômica e social era muito diferente da
Inglaterra e da França — tudo isso serviu para desestabilizar a organização que
vivera desde o início num equilíbrio delicado. A transferência da sua sede para
Nova York após o encontro na Holanda, junto com o afastamento de Marx, foi uma
espécie de epílogo, apesar de a associação demonstrar força em alguns países
europeus nos quatro anos seguintes.
—
Se a globalização neoliberal enfraqueceu os movimentos dos trabalhadores, ela
também abriu novas possibilidade de comunicação, facilitando a cooperação e a
solidariedade. Com esta recente crise do capitalismo, que aprofundou mais do
que nunca a divisão entre capital e trabalho, o legado da I Internacional se
mostra ainda mais relevante e atual — argumenta o professor.
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