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A LUTA DE CLASSES NA ALEMANHA- Marx e Engels- Parte I: "O REI DA PRÚSSIA E AS REFORMAS SOCIAIS"

CONTEXTO HISTÓRICO DA PRÚSSIA
Historicamente o território da Prússia foi adquirido à Polônia, pelos tratados de Wehlau (1657) e Oliva (1660) por Frederico Guilherme de Hohenzollern, o Grande Eleitor de Brandenburgo (1640-1688), que conseguiu a libertação do ducado da suserania da Polônia e o reconhecimento de sua soberania, que logo se efetivou (1662), com a submissão da nobreza. Aos territórios iniciais logo se acrescentariam outros como os condados de Clève e Mark, na Renânia, e o condado do Ravensburg, no Weser. Assim o território foi elevada a reino (1701), tendo como rei Frederico I ou Frederico III de Brandemburgo, Eleitor de Brandenburgo (1688-1701), embora a imposição definitiva tenha vindo após a posse de Frederico Guilherme I (1713). Foi esse um administrador dedicado e severo, que dotou o país de um excelente exército, o terceiro da Europa, depois da Rússia e da França, e levantou a economia do reino principalmente com a indústria de lã com que vestia o exército.
Com a rendição de Napoleão III, em Sedan, e com o desenvolvimento bem planejado de um entusiasmado espírito nacionalista, a adesão dos principados que ainda resistiam à unificação nacional foi conquistada, e na Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes, em Paris, na presença da corte germânica, muitos príncipes alemães e numerosos militares de alta patente em trajes de gala, decorados com medalhas, foi feita a proclamação do rei prussiano como imperador. Aquele ano ficou como o da fundação do Império Alemão (1871), 170 anos depois do Príncipe Eleitor de Brandemburgo ter sido coroado como o primeiro rei da Prússia. Bismarck se tornaria o primeiro-ministro prussiano e primeiro chanceler, chefe de governo do Império recém-fundado.
O Império da Prússia não sobreviveu a aventura da I Guerra Mundial (1914-1918), menos de meio século depois, e seu último imperador, b>Guilherme II (1859-1941), morreu no exílio (1941). A Prússia como Estado foi praticamente abolida pelos nazistas (1934) e, juridicamente, pelos aliados (1947). No entanto, o termo continua tendo relevância devido aos usos históricos, geográficos e culturais. O nome Prússia deriva dos Prússios, um povo do Báltico relacionado com os lituanos e em alemão escreve-se Preußen ou Preussen, em latim Borussia, em polaco Prusy, e em lituano Prusai.

Retrato de Frederico Guilherme IV da Prússia (1795-1861) - Rei da Prússia.
No período após o domínio de Napoleão Bonaparte (1848), surgem guerras unificadas na Alemanha (Prússia) que estava sob comando de Guilherme IV.

Antes de iniciarmos a abordagem da obra (A luta de classes na Alemanha), é preciso compreender o significado de uma palavra chave, cujo a mesma aparecerá várias vezes ao longo de todo o escrito, chama-se: “pauperismo”, termo que significa miséria, penúria; é o antônimo de luxo, riqueza.
Em relação ao rei prussiano, e o pauperismo, a crítica posta nesta obra é em relação as reformas pelas quais o reino da Prússia necessitava passar, medidas que minimizassem as mazelas sociais. A crítica ao pauperismo prussiano se dá de maneira errônea (segundo Marx) de considerar as mazelas sociais como um “fenômeno natural” (ideias parecidas com as de Malthus). Mas no que exatamente consistiria o erro afirmado por Marx? É incorreto não assumir que o pauperismo seja resultado da falta de vontade política e a má administração econômica e política. O erro consiste em não se criar leis que beneficiem os pobres, acreditando que as medidas beneficentes irão dar conta dos problemas (e quando não consideram sendo “a solução dos mesmos”). Pelo contrário, tais medidas beneficentes são uma forma de mascarar a falta de vontade política em efetivamente “pensar e agir” sobre os problemas sociais.

O REI E SUA CONDIÇÃO “APOLÍTICA”
Acontece que o rei acaba se tornando uma figura apolítica por lidar com o pauperismo além de ter um governo totalmente calcado na religiosidade, sendo que que no reino prussiano: “a ordem era ditada pelo sentimento religioso”, contudo, faltava ao rei a vontade política e a autoridade administrativa perante os problemas sociais, principalmente acerca do que envolvia a classe mais pobre, diante disto o rei destinava as ações e responsabilidades aos seus subordinados, sendo os mesmos responsáveis pela criação de tais medidas destinadas para amenizar o pauperismo agravante da época.
Uma questão fundamental para a reflexão desta obra é: Porque não havia a tentativa de aniquilação do pauperismo através da política e leis efetivas no lugar de procurar medidas beneficentes para sanar o problema? Já ouviram falar naquele famoso ditado: “A miséria não acaba, porque a mesma afere lucro”? Como retirar indivíduos da penúria (indivíduos estes com baixa escolaridade e envolvidos a longas jornadas de trabalho)?A lógica é simples, para retirar esse povo da miséria seria preciso diminuir a sua exploração,  acabar com jornadas de trabalho longas e massacrantes, ter-se-ia que investir na escolarização dessa massa e criar outras medidas sociais eficazes que garantissem a “saída deste povo da penúria social e intelectual”. E isso seria um sério problema para o Estado, tanto como ameaça ideológica e tomada de consciência, como seria o aumento de gastos. Em outras palavras, erradicar o pauperismo exigia alterações profundas na ordem estabelecida até então.
Pensando no Estado prussiano (e quem sabe em muitos outros), possivelmente você não verá a erradicação do pauperismo por parte da máquina estatal, pois se o Estado destrói qualquer forma de erradicação das mazelas sociais, ele se ''auto destruirá'', (pois o Estado não é se não fruto da classe dominante?), não importa se o mesmo for liberal, escravocrata ou burguês. Sob  essas formas de Estado haverá os interesses predominante de classes hegemônicas e com a certeza de que nas formas já citadas de Estado, a classe trabalhadora não é o poder dominante.
Devido a todas as medidas não pautadas em lei adotadas pelo estado para eliminar os problemas sociais, é que o governo prussiano é acusado por Marx por adotar "ações apolíticas", recorrendo ao assistencialismo (a Inglaterra foi um Estado que também fez uso de tais medidas) e o uso de outros meios administrativos para amenizar a penúria de muitos cidadãos, “pois o rei prussiano entendia e representava a existência do pauperismo a partir da má vontade dos pobres”, quer atitude mais apolítica que esta? Ou seja, a miséria e penúria em que se encontravam muita gente, seria fruto de sua própria má vontade.






Lutas de classes na Alemanha é o nono volume da coleção Marx e Engels, na qual a Boitempo vem publicando a obra dos dois pensadores em traduções inéditas, feitas diretamente do alemão. Com prefácio de Michael Löwy e tradução de Nélio Schneider, esse livro reúne pela primeira vez alguns dos principais textos redigidos por Marx e Engels sobre as lutas de classes na Alemanha – textos que visavam não só interpretar a realidade social e política mas também transformá-la, para retomar a famosa Tese XI sobre Feuerbach. Clique aqui para acessar livraria online e conferir o preço desta obra.



Texto: Fernanda E. Mattos, autora e colunista do Blog um quê de Marx. Postagem baseada na obra: A luta de classes na Alemanha, editora: Boitempo, e você encontra esta obra pelo melhor preço na Pueblo livraria.









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